2017: O ano em que eu virei hétero • We Love

2017: O ano em que eu virei hétero

homem de frente para uma tela em preto e branco

Esse é um relato demorado de como uma bariátrica fez de um gordo assexuado, um hétero com potencial transante.

A história começa com o fato de que eu sempre fui gordo. Mesmo quando tendo o mesmo peso que hoje fez de mim um homem ”normal”, 85 kgs – peso que me faz vestir manequim 42 e camisetas M -, eu era gordo.

Quando era pré-adolescente, fase em que a consciência do peso faz alguma diferença na nossa vida, eu era gordo por ser o tipo de menino que tinha barriga e demais volumes enquanto a maioria dos outros garotos da mesma idade eram retos e extremamente magros. Afinal, quando eles ainda compravam roupa por tamanho de idade 14 ou 16 anos, eu já escolhia camisetas largas nas araras dos adultos. Eles, os ”normais” usando 32 e 38, e eu, o gordo, usando 40. Eles no PP e eu no M, G… E crescendo. Então, eu era gordo mesmo não sendo. Mas era. Reconhecido, enaltecido, apontado. Some isso ao fato de ter sido consideravelmente estrábico (vesgo mesmo!) até os 20 anos de idade e, claro, não fica nenhum pouco difícil de presumir que eu me tornei um feat. entre o nerdão clássico e o gordo engraçadão sagaz que jamais sequer foi cogitado pelo grupo de musas das classe para ser incluído em uma rodada de ”Verdade ou Consequência” atrás do colégio.

Por causa desse combo de predicados incríveis associado às piadas, aos olhares de desaprovação do ”conjunto da obra” e a um senso crítico que estoura os limites da auto-depreciação, me retraí para seducência tão comum aos meninos que aprendiam a chegar nas garotas.

E, mesmo assim quando parecia improvável, depois de fazer algumas dietas malucas ali na casa dos 14 anos, fui descoberto pelo que parecia o amor. Uma garota 2 anos mais velha, de um outro colégio… Um outro mundo que não era aquele que me reprovava, que depois de algumas tardes passadas em encontros ”sem querer” e conversas cordiais sobre o que nos havia levado mais uma vez a passar aquelas horas naquela biblioteca tão sem graçona, me pediu um beijo.

Não. Aquele não era o meu primeiro beijo, porque sempre tem um ”Verdade ou desafio” pra salvar um feio e ferrar uma bonitinha da turma. Mas parecia ser o primeiro dela em um cara feio. E por ter sido tão inesperado que ela me desejasse, ”nós” achamos interessante que ninguém nos visse juntos a partir daquele momento.

E assim às escondidas, mudando de praça, de muro, de novo beco escondido em Campinas (bairro aqui de Goiânia), de encontro secreto na casa dos pais ou da avó dela quando ninguém pudesse nos ver nem chegando na rua, foram uns 10 meses; entre idas com ”você sabe que alguém como eu sou muito pra você, né…” e vindas com ”sabe que o melhor pra você é ter um pouco de mim do que nada de nenhuma outra”.

Chato? Sim…Triste? Talvez. Determinante para uma que eu assumisse uma postura de ”não precisamos rotular nada” para evitar qualquer constrangimento? Muito! Mas, àquela época, mesmo não podendo comentar ou me vangloriar por isso, eu só queria transar e com ela. Desde que fosse em um lugar onde ninguém nos visse juntos como alguém que ela tivesse algum interesse, tinha tudo.

Corta para a infância: pai ausente, mãe solo, muitas primas como amigas de infância e uma estrutura familiar com muita força matriarcal, talvez tenham feito de mim um cara mais sensível do que o esperado para um cara.

Ou não. Talvez, eu só tenha sido um metrossexual no armário, aprisionado pela falta de roupas que me coubessem e muito conhecimento de moda, design, arte e assuntos tidos como “não-masculinos” – que chegaram como efeito cascata depois que descobri nome de um estilista que teria se inspirado no Nirvana para criar uma coleção muito barulhenta para uma marca aparentemente sem graçona em 1993. Seu nome era Marc Jacobs.

Enfim, adicione a isso uma aparência corporal que sofria um efeito permanente de de ganho de peso e, tcharãn!, temos aqui um legítimo espécime do amigo gordo engraçadão sem nenhum predicado sedutório ou histórico de namoradas com um comportamento próximo e respeitoso a ponto de não despertar nenhuma ameaça e, mais que isso, uma eterna dúvida do grupo de ”será que ele é?”.

Mas, como todos sabem, quando dúvidas como essa surgem sem os devidos esforços para provar o contrario, devido ao fato de não me sentir bem à vontade para encontrar ou com alguma vantagem para flertar, logo se transformam em certezas para todos aqueles que não me viam com “a novidade da vez” – até porquê, as “novidades” sempre foram meio platônicas ou secretas, “não tinham a menor chance de acontecer” ou não vinham para ficar por muito tempo, por não estarem dispostas a andar de mãos dadas por aí. E à medida em que fui me cansando de negar o que não chegava como dúvida, notando o quanto esta postura de “defesa”, inclusive, reforçava o veredicto daqueles que me julgavam, acabei optando pelo vácuo da invisibilidade. Invisibilidade daqueles que, assim como eu, passam a ser uma forma humana, mas não um homem ou mulher.

Lógico que eu caí nas armadilhas da caricaturização do gordo. Virei o amigão ”dos melhores abraços”, o ”cara que te ouve sem pedir nada em troca”, o ”irmãozão dos sonhos” e, como disse anteriormente, virei o engraçadão também. E em um dado momento da minha vida, entre numa micro-crise existencial com a questão: eu sou engraçado porque eu sou engraçado ou sou engraçado porque eu sou gordo?

Mas, por saber que isso é tão clichê como esperar que uma mulher negra sambe como uma madrinha de bateria, queria listar aqui os benefícios da liberdade da minha invisibilidade que, consequentemente, acabaram contribuindo para as impressões que me fizeram viver por anos no limbo das dúvidas de muitos amigos e conhecidos:

01 – Nunca precisei me esforçar para impressionar ninguém com a minha vida sexual:

”Não imagino você fazendo…sabe, né…”, disse uma vez uma amiga com um sorrisinho constrangido pra mim. Ótimo. Sendo gordos intransáveis, mesmo estando em uma ou outra temporada de ”chuva na horta”, nunca precisei participar das disputas de ”quem tem transado mais e melhor” que eventualmente acontecem entre os caras. Mesmo que eu estivesse falando a verdade, soaria como uma mentira pedante para quem me ouvisse. Então, sempre fiz cara de paisagem ou ria da queda de braço entre vidas sexuais.

02 – Sempre tive a liberdade para ousar sem medo:

Roupas divertidas, tênis/sapatos ousados, combinações que beiravam o caos, peruca pra brincar numa festa…Tudo aquilo que poderia parecer estranho para um cara usar, eu sempre usei.

03 – Liberdade para demonstrar meu afeto e minhas opiniões sinceras sem medo de ser interpretado com segundas intenções:

Sem ser uma ”ameaça”. Não tendo nenhum atrativo e sendo uma dúvida, nunca escondi elogios ou ”toques”. Quando alguém tão sem atrativos como eu elogia, por exemplo, o perfume de uma mulher, é sincero. E por não representar nada além de uma ”surpresa boa para o ego de quem recebe”, você nota uma reação sincera e doce sobre o comentário. Sem joguinhos…Sem olhares indecifráveis…Só ”Ah tá!”.

04 – Imunidade às tretas causadas por ciúmes:

Você pode tanto elogiar uma amiga perto do cara com quem ela está ficando ou falar bem dela com a garota com quem você está ficando porque, por motivos óbvios de ”olha só ele sendo carinhoso de novo com aquela menina que jamais olharia pra ele como um homem”, nada vai acontecer a você, nem à sua amiga por estar sendo carinhosa com ”aquele amigo ‘super fofo’ dela”.

05 – Poder gostar abertamente de músicas, coisas, artistas, cores, filmes e tudo aquilo que não se espera para se ser um ”homão da porra”:

Porquê você jamais será visto dessa forma mesmo. Então, tá liberado cantarolar, sei lá… ”Wannabe” bem distraídão.

06 – A real possibilidade de observar mulheres se comportando de uma forma totalmente livre de qualquer intenção (em relação a você, no caso), podendo enxergar de fato o quão legitimamente bem-humoradas, reais, frágeis e fortes elas podem ser.

07 – Liberdade para expressar afeto por geral:

Beijo, abraço e elogio abertamente TODO mundo que eu gosto muito. Da amiga princesinha (que jamais veria em um abraço meu uma ameaça de sarrada, porque ela sonha mesmo é com cara hypster descoladão ou com o balada top) ao amigo barbudão estranho, todo mundo ganha abraço e beijo na bochecha SIM!

– Mas e esse coraçãozinho, hein? Adoro gente que tem esse tipo de abordagem quando, na real, querem mesmo é saber se você tá ou não transando com alguém – apesar de você ser assim, tão você. Mas, para a surpresa de todos, informo um dado alarmante sobre a sexualidade no mundo: pessoas feias TAMBÉM TRANSAM (pausa para reação chocante com trilha sonora: TÃN-DÃN-DÃÃNNNN!).

Eu sei. Parece impossível. Por minha ausência de autoestima que gerou a total falta de talento para o flerte, em algum lugar entre o fim do meu primeiro não-relacionamento e, até ali pelos 20 anos, também achei que seria a minha sentença: o de ”Eterno virgenzão assexuado da galera”. Até o dia em que, depois de ver do espelho do banheiro mais uma das suas não-encontros limpar o seu histórico de mensagens, você se cansa.

Recentemente, passando pelo Retorno de Saturno caótico e por um período profissional turbulento, resolvi apelar para a bariátrica. Em 6 meses, emagreci 40 quilos; mudando tanto meus manequins quanto os olhares dos outros para mim. Depois de muito ser infantilizado e assexuado, observar o efeito surpreendente de “ser uma nova pessoa”, mesmo quando você tem certeza que não mudou nada e conhece as mesmas pessoas há uns 10 anos, é algo engraçadíssimo.

Eu sei que a minha posição passiva de nunca ter avançado publicamente em nenhuma daquelas que me interessaram, ou a minha postura em jamais comentar sobre o que eu sentia ou passava durante os meus não-relacionamentos, contribuiu para a formação desse “eu” incógnita. Mas, sejamos sinceros, caras leitoras de 25 a 35 anos que ainda persistem nesse texto mais longo que casamento de crente. Dentro do quadro aqui exposto e dando uma olhadinha nas minhas fotos de um passado recente no meu Instagram (@delansalazar), faria alguma diferença para você saber se eu sou hétero ou não?

Não, né.
Então, por que eu me esforçaria pra ficar relembrando e reforçando?

2017, portanto, será para sempre para mim um dos anos mais interessantes da minha vida. Como ano em que descobriram que, além de ter pescoço como todos os outros seres humanos, eu também sou hétero.

Eu sei. Um desperdício de potencial… Mas fazer o quê?! Depois que eu vi Kim Basinger em Batman, fiquei assim… Aí depois teve Deborah Secco num Você Decide, a Courtney Love… Ah, a Cleo Pires surgiu também. Desculpaê.

Delan Salazar

Delan Salazar

Tendo o nome do meu avô, a cara do meu pai e o humor pouco ortodoxo da minha mãe, pensei em usar a facilidade para escrever herdada da minha avó para ganhar o dinheiro que paga as contas. "Virei" redator publicitário, mas já quis ser professor de história.
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