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28 dias de incerteza

Previsão Tecnológica | Créditos: Pixabay

Devo confessar que adoro baladas. A música alta que faz meu coração pulsar mais forte, as pessoas embriagadas dançando desengonçadas, uma felicidade no ar… Tudo isso é temporário, claro. Entretanto, não nego que o ambiente me atrai e me diverte. E foi assim que começou a minha história; numa balada. A casa com suas paredes escuras, dezenas de pessoas jovens (como eu), a DJ tocando aquele POP delicioso e todos cantando e dançando como se fosse o último dia de suas vidas.

De repente, vi aquele cara, alto, tez branca, sorrindo meio de lado e rosto fino, emoldurado pelo cabelo curto preto e bem cortado; vestia uma camisa de botão, calças jeans e um All Star tradicional… Ele era lindo. Assim que o vi, pensei: “Preciso conhecê-lo!”. Mas ele acabou desaparecendo das minhas vistas por, pelo menos, uma hora. Mais tarde, nos cruzamos e então: MÁGICA! Ele me olhou e me beijou. A gente tinha uma química incrível – nossa! Foi tudo tão intenso, a gente sequer perguntou o nome um do outro, mas, quando percebemos, já estávamos no táxi vindo para a minha casa, e então o moço bonito me contou que se chamava Bruno.

Subimos para o meu apartamento e toda aquela intensidade voltou, fomos avançando os sinais, tirando a roupa, os nossos corpos unidos, quentes e então veio aquele susto: a camisinha havia estourado. “E agora?!”. O desespero tomou conta de ambos. Apesar do álcool e da embriaguez, éramos responsáveis com nossa vida sexual, nossa saúde, nós mesmos. Foi então que, por sorte, lembrei de uma conversa que havia tido com um amigo semanas atrás, na qual ele havia me contado sobre um tratamento que se chamava “profilaxia pós-exposição”. Expliquei do que se tratava ao Bruno, e resolvemos ir ao hospital no outro dia.

O Brasil é um dos países mais avançados em relação ao tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente o HIV. Aqui, o soropositivo tem assistência gratuita nos hospitais da rede pública, e esse assunto é visto com muita seriedade pelos profissionais de saúde. A profilaxia também é gratuita. Após uma exposição de risco ao vírus da AIDS, é possível recorrer a esse tratamento em diversos hospitais da rede pública em todo o país, mas o tratamento deve ser iniciado em no máximo 72h após a relação, caso contrário, não funciona. O quanto antes você for ao hospital, maiores as chances de se evitar o contágio. A profilaxia consiste, basicamente, em dois medicamentos que devem ser tomados diariamente em um período de 28 dias – sem interrupção -, sob risco de ter sua eficácia reduzida drasticamente caso o paciente não seja fiel à posologia.

Eu e Bruno chegamos ao hospital e nos perguntaram o motivo de estarmos ali, respondi com uma voz firme e segura: “Profilaxia pós-exposição”. Estava morrendo de medo, a insegurança já tinha tomado conta de mim (e dele), sorríamos nervosos, falando sobre nossas vidas. Nos deram uma ficha com etiqueta vermelha, me dei conta de que éramos prioridade máxima, emergência e, mais uma vez, pude me dar conta da gravidade daquela situação.

Fomos chamados por um médico, que nos atendeu e nos fez diversas perguntas. Em seguida, nos encaminharam para fazer a coleta, e por duas horas nossa angústia só fez crescer. Esse é o tempo mínimo necessário para se fazer o exame de HIV. Após aquela eternidade, já consumidos pela ansiedade e medo, nos chamaram e foi dado nosso veredito: “Negativos”. Ficamos muito felizes, claro, mas por uma questão chamada “janela imunológica”, que é um período onde o vírus do HIV poderia permanecer indetectável, nos deram a medicação e fomos para nossas casas.

Hoje, Bruno é meu amigo. Durante os 28 dias seguintes, sofremos muito com todos os efeitos colaterais do tratamento. Dores de cabeça, náuseas constantes, vômito, diarreia… Passamos esse período nos confortando, checando se reagíamos bem aos remédios. Ao final do tratamento, voltamos ao hospital para refazer os exames e, por sorte, estava mesmo tudo bem. Foram 28 dias de um inferno absoluto, quando eu não sabia se teria ou não que passar o resto da minha vida tomando remédios. Tive sorte de conseguir ir ao hospital junto ao meu parceiro, verificar junto a ele se estava mesmo tudo bem, mas a maioria das pessoas não têm. O risco permanece uma incógnita.

O vírus da aids já não é um tabu, e não precisa ser. Os soropositivos conseguem ter uma vida absolutamente normal e, de forma alguma, devem ser excluídos, mal tratados, postos de lado pela sociedade. Porém, o HIV ainda não tem cura. Por não haver mais aquele fantasma das pessoas extremamente magras ou moribundas, a população jovem deixou de se prevenir, e temos visto um aumento do número de pessoas infectadas nos últimos anos. Isso é um retrocesso. Devemos ter respeito ao próximo, respeito a nós mesmos.

A camisinha é o método mais eficaz de se prevenir o contágio não só dessa, como de diversas outras DSTs. E lembrem-se: há uma alternativa. Se por qualquer razão, você teve relações sexuais sem preservativo, vá ao hospital. Se informe sobre a profilaxia pós-exposição, mas não tenha medo, não pense no julgamento das outras pessoas. Vai ser muito pior conviver com o seu próprio julgamento, caso as coisas não saiam tão bem como saíram pra mim.

*O autor do texto não quis se identificar.

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