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A dor da despedida

A dor da despedida | Créditos: Pixabay

Quando você deixa uma vida para trás e vai morar fora.

Passei a semana com insônia. Acordando cedo, dormindo tarde. Colocando minha vida dentro de caixas e mais caixas que brotavam de todos os cantos da casa e pareciam não terem fim.

Primeiro resolvi me despedir das coisas. Numa brava tentativa de desapego, entre roupas, objetos e bicicletas, muita coisa foi embora. O que ficou foi parar numa caixa chamada purgatório, para ser julgado posteriormente se merece ficar ou partir.

Parte de mim gostaria de ter menos apego. Mais desprendimento. Ter evitado o purgatório e pegado um atalho direto para o paraíso. Esperava me sentir mais leve agora que estava me jogando no mundo.

Mas foi inevitável. Perdi o chão. Perdi o sono. Perdi o eixo. Culpa da ansiedade que veio como um furacão, causada pelo tempo que tinha dia e hora exatos para acabar. Ou do futuro, tão incerto que nem endereço tinha. Parece que é o que acontece quando se muda assim de repente, para o outro lado do mundo.

Me despedi de cada coisa que fiz pensando ser a última vez. Me despedi da rotina. Dos velhos hábitos. Do açaí com banana de todos os sábados. De passar o final de semana inteiro de havaianas. De almoçar na casa dos pais e beber na casa dos amigos. Me despedi das pessoas. A nostalgia me invadiu e percebi quanto amor elas adicionavam à minha vida.

Antes de ir embora, parei na porta de casa e observei ao meu redor. Tudo vazio. Armários sem roupas, varanda sem bicicletas, prateleiras sem vida. Lar sem alma nem identidade. Me despedi de casa como se estivesse deixando um pedaço de mim para trás. As lembranças dos últimos anos me invadiram como uma avalanche. A cada canto que olhava, lembrava de uma história. As lágrimas caíram sem que eu tivesse tempo de piscar.

Percebi que não tinha volta, e pela primeira vez passou pela minha cabeça como tive coragem de fazer aquilo. Coragem. Tinha escutado esta palavra tantas vezes nos últimos dias que ela já tinha perdido o sentido. Enfiei meu rosto no peito dele e chorei. Senti uma saudade imensamente precoce, de algo que ainda não tinha partido.

Com caixas e sem cama, dormimos a última noite na casa dos meus pais. Me despedi de lá com a doce lembrança de que ser cuidada por eles é uma das melhores coisas da vida. Me despedi da vida em família. Participei da normalidade da vida deles achando tudo especialmente doce.

Jantamos com mais pessoas do que cabem na mesa. Disputamos quem seria a vítima a levantar para pegar o guardanapo. Depois o queijo. Depois a torta. Atos que caíram todos sobre o pobre do meu irmão que se sentou mais perto da cozinha.

Fiz minha mãe de refém enquanto tomava banho para podermos falar sobre a vida. Dei um beijo de boa noite no meu pai antes de me deitar. Ele voltou para outro beijo quando eu já estava deitada, como fazia todos os dias quando eu morava lá. Tomei café da manhã enquanto a Mariazinha, que trabalha lá – mas faz parte da família -, já divagava sobre o jantar antes das sete horas da manhã.

Finalmente, fomos em comboio para o aeroporto. Dois carros. Cinco malas. Me despedi à moda antiga. Nos abraçamos antes de cruzar a divisória que separa os que vão dos que ficam. Nos beijamos de novo com a divisória demarcando nosso espaço. Acenamos sem parar até que todos sumissem pelo vidro da área de embarque.

Enquanto caminhava em direção à área de embarque, apertei os lábios com força. Passou pela minha cabeça voltar de dar um último abraço. Me segurei pensando que seria ridículo. Considerei ligar para dizer tchau mais uma vez. Me senti completamente ridícula. Respirei fundo e continuei em frente. Meio anestesiada. Totalmente perdida.

A dor da despedida foi quase tão grande quanto a necessidade de partir. Penso se meu coração voltará a ser o mesmo depois desta última semana. Se eu voltarei a ser a mesma.

Finalmente, entendi que a maior de todas foi a despedida de mim mesma. Despedida daquela que planejou uma vida feliz. Que tinha um emprego bacana. Uma casa aconchegante, com uma vista incrível. Uma família maravilhosa e amigos inseparáveis.

Despedida daquela que tinha um amor para a vida toda. Mas que trocou a segurança do felizes para sempre, pela incerteza do felizes mais ainda.

Fernanda Granato

Fernanda Granato

De São Paulo, formada em Comunicação Social. Trabalhou em marketing por dez anos. Aprendeu que felicidade deve ser o caminho e não o destino. Decidiu mudar de vida e de endereço. Foi para Londres com seu marido e seu único plano é fazer o que gosta e alimenta sua alma. Seus textos traduzem de maneira delicada e aberta, em palavras, sensações presentes entre os episódios cotidianos de sua vida. Também escreve para o Sweet My Sour.
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Comments

  1. Fernanda, seu texto me fez chorar. Me levou para meu futuro daqui 1 mês. Ando anestesiada. Não quero pensar na despedida no aeroporto. É preciso mesmo coragem, e a pergunta: “onde eu estava com a cabeça quando aceitei?” já me passou algumas vezes pela cabeça em momentos-chave do processo que, para mim, está sendo longo, começou em setembro passado e só vou em abril. Para Londres. Não sei para onde você vai mas, de repente, a gente se encontra :) que a vida te surpreenda, que você se re-encontre o mais rápido possível, que descubramos que ainda somos nós mesmas. Boa sorte!!! Beijos

  2. Oi Deise
    Que delícia ler seu comentário, e fico feliz em ter me conectado com vc pelo texto.

    Se acalmar seu coração moro em Londres há um ano, e estou super feliz – minha despedida já faz alguns bons meses. Sinto que troquei muitas coisas boas por muitas outras coisas boas. É uma troca, e como toda troca significa perder algo para ganhar algo.

    Mas a experiência é imperdível, e a expansão irreversível.
    Muito boa sorte para vc!

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