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A escuridão que faz meu coração pulsar

A escuridão que faz meu coração pulsar | Créditos: Pixabay

Outro dia, recebi uma mensagem dizendo algo como “não adianta se esconder numa negritude quando, lá na frente, existe um mundo cheio de cores. (…) E, cara, não acredito que aí dentro não exista um coração pulsando”. Primeiro, parei pra pensar nessa negritude na qual, supostamente, eu me escondo. Hm. Não, não me escondo. Existe a negritude – de fato – mas não me escondo nela. Eu a vivo. Tenho consciência das cores todas que existem e das luzes muitas que incandescem almas por aí. Não é o meu caso. Não é o caso de muita gente. Isso não significa, no entanto, que a escuridão me entristeça. Muito ao contrário, traz paz. Traz conforto, segurança. Traz beleza.

Há alguns meses, fui a um aniversário num bar da praia e tive uma das melhores experiências da minha vida. Não conhecia muita gente na festa, então, em determinado momento, pude sumir sem que ninguém percebesse. Desci sorrateiro para areia e desapareci. Na cidade onde moro, a extensão de areia da maior parte das praias é imensa, o que permitiu o distanciamento completo da festa. Fora da vista dos convidados, peguei meus fones de ouvido e coloquei minha playlist de músicas da Sopor Aeternus and the Ensemble of Shadows; fechei os olhos, enquanto a melodia de Strange Thing To Say começava a me preencher, respirei fundo sentindo o sal do mar e o vento frio no meu rosto, abri os olhos e fitei aquela escuridão tão convidativa. Enquanto Ana Varney Cantodea começava a gemer os primeiros versos, fui caminhando em direção ao mar. De um lado, o vazio; do outro, mais vazio. À minha frente, lar.

A música me tocava de forma tal que trazia arrepios muitos. A cada pelo eriçado, um sorriso escapava. Eu estava alegre, estava me sentindo bem. Quando as águas mornas molharam meus pés descalços, senti uma vontade quase incontrolável de continuar andando até que eu não mais existisse em terra. Os fortes ventos litorâneos faziam o quimono preto de franjas, no qual estava vestido, voar ferozmente; e eu podia ver minha sombra no chão pouco iluminado por uma lua tímida, mas insistente, que ia e vinha por entre as nuvens densas: minha sombra era um espectro escuro, minha sombra era minha alma externada. A imagem das franjas voando com violência me dava a sensação de que o espectro estava voando; eu estava voando. Fui ao encontro das ondas maiores. As menores já molhavam minhas panturrilhas e espirravam água em parte da roupa. Cantodea soltava grunhidos arrebatadores já cantando The Goat – o mar parecia vivo, chamava meu nome, convidava a fazer parte do negrume.

Olhei para as águas e, no reflexo indistinto, reencontrei minha alma pronta para alçar voo; abri os braços – voei. Não me importava com mais nada. Naquele momento, eu era meu. Eu, o eu (não mais) desconhecido e os tantos outros comigos, juntos, voando para o infinito do mar. As ondas já chegavam à minha cintura quando o mar começou a ficar mais violento, me puxando para o fundo, implorando que eu voltasse de uma vez por todas para meu lar, junto aos meus. Eu não podia decepcioná-lo. Voltei à beira, tirei o que restava da roupa, deixei tudo lá e corri em direção às águas mornas. Mergulhei. Imerso, tudo o mais era breu. Era silêncio. Era paz. Queria eu poder respirar debaixo d’água para poder viver ali pra sempre… Emergi sem enxergar muito. As luzes da festa estavam longe, as pessoas eram pequeninas, o som da música eletrônica estava abafado. Encarei de volta o oceano e mergulhei. Passei o máximo de tempo que pude, mas não voltei pra casa. Eventualmente, alguém foi me procurar para ir embora. O sol nasceria em breve e tudo iria se desfazer de qualquer forma.

Aquela experiência, entretanto, foi só mais uma confirmação de que cores gritantes e luzes ofuscantes não fazem parte da minha realidade. O soturno me abraça, o lúgubre me beija, o taciturno faz meu coração bater. Então, não, eu não me escondo em negritude alguma; muito menos, tenho um coração morto. É a negritude na qual vivo que faz meu coração pulsar.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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