A incrível geração que não se limita a ser uma geração • We Love

A incrível geração que não se limita a ser uma geração

aquela geração de mulheres

Uns quatro anos atrás, Ruth Manus escreveu um texto sobre a incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem não quer. Em seguida, Mariliz Pereira Jorge publicou um outro, falando sobre a incrível geração de mulheres chatas. Uma afronta, claramente, mas o papo aqui não vai ser de picuinha entre escritoras. Esse texto voltou para a minha linha do tempo do Facebook essa semana e, hoje, penso bem diferente do que pensava alguns anos atrás. Naquela época, compartilhei o texto da Ruth, me encaixando perfeitamente no padrão de mulheres que foram criadas para ser tudo o que um homem não quer: sou workaholic desde sempre, bocuda, era muito intolerante às diferenças da vida e sempre dei 250% de mim para todos os trabalhos que tive. Hoje, penso um pouquinho diferente e só queria chegar na resposta de uma pergunta bem simples: quem são essas mulheres, afinal?

Existem as mulheres que querem ser tudo o que os homens querem; e existem mulheres que querem ser tudo o que os homens não querem. Será que alguma delas sabe o que os homens querem? Será que elas sabem, de verdade, quem são esses homens? Será que esses homens são todos iguais? Não vou entrar na discussão de not-all-men, mas, me diz: “todos os homens” não é gente demais?

Fico longe de achar que as mulheres são chatas, mas preciso repetir um trecho do texto da Mariliz, porque só posso concordar: “o tempo não passou só para as mulheres”. Os homens também têm uma cabeça diferente. Mas é claro que não são todos.

Existe uma penca de homens pagando a conta toda do primeiro encontro e deixando mulheres em suas casas com um beijo de boa noite. Só não paga o motel, porque mulher “que se valoriza” não transa no primeiro encontro, é claro. E também existe uma penca de homens rachando a conta em dois e levando a madame de metrô pra transar em casa. E também existe uma penca de homens no meio do caminho, que saem com outros homens e, talvez, paguem a conta do jantar e são levados para casa.

São tantas possibilidades diferentes de configuração dessa incrível geração que muito me espanta a quantidade de compartilhamentos de um texto que coloca todo mundo nessa mesma caixinha. Viveríamos em um mundo maravilhoso se fôssemos todos parte de uma geração de pessoas incríveis, trabalhadoras, batalhadoras e cheias de si. Até porque, veja bem, a nossa geração é mesmo incrível. Tem moleque de vinte e tantos se virando nos 30 pra fazer a vida acontecer. Tenho minas na vida que ainda nem passaram dos 25 e rebolam no dia a dia para dar conta de casa, trabalho, estudos e vida social sem surtar. É mais importante não surtar do que dar conta: e elas fazem as duas coisas.

Mas também temos uma geração bem acomodada. A incrível geração de pessoas que não saem da casa dos pais. A incrível geração de mulheres que ainda escolhem o cara pelo carro. A incrível geração de homens que escolhem as mulheres pelo número do manequim. A incrível geração de pessoas que gastam o salário inteiro com álcool e não pagam as contas.

Não tem uma incrível geração só. Tem um monte de bolhas. Um monte de gente diferente. Um monte de gente incrível, um monte de gente meia-boca. Que sabe cozinhar, que não sabe. Que sabe fazer imposto de renda, que pode pagar contador, que manda muito bem no trabalho, que não faz ideia do que tá fazendo na posição que tá. Gente que faz três, quatro faculdades e, mesmo assim, sabe que, na mesa do bar, o “se pá” é melhor aceito do que o “quiçá”. Gente que terminou a primeira graduação, provavelmente de Letras na USP, e se mete a usar “inexorável” e “inexequível” no cafezinho.

Tem gente de todo tipo: gente chata e gente incrível. Mulher chata e mulher incrível. Homem chato e homem legal. Gente sendo gente.

A única coisa que a gente não pode esquecer é que a gente se filtra pelo que enxerga – e a gente, quase sempre, só enxerga a própria bolha. Umbiguismo mata. Ou publica textos que escancaram o problema que é achar que o mundo é o seu feed do Facebook. Tipo esse.

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
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