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Agatha Christie ou Foucault?

Agatha Christie ou Foucault? | crédito: Pexels

Nos últimos meses percebi a volta de alguns hábitos. Uns hábitos que eu adorava e, sei lá, tinha me esquecido nas últimas décadas. Parei para pensar sobre isso outro dia e achei divertido me dar conta que era possível fazer uma timeline literária.

Aprendi a ler muito cedo. Escrevi antes de saber usar um giz de cera.

E lia todas as placas ao contrário, inventava uma história nova para cada cidade que eu visitava. Diferente de São Paulo, nós passávamos o dia em Oluap Oas, onde o céu era o chão e andávamos de ponta cabeça. Ser criança é uma viagem. Me lembro disso até hoje. Eu até queria crescer logo para ver se essas alucinações passavam.

Os livros aconteceram para mim de um jeito muito natural. Monteiro Lobato, Meu Pé de Laranja Lima, O Galo Marquês, Marcelo Marmelo Martelo, Droga da Obediência, Escaravelho do Diabo, Gênio do Crime, o de sempre. Eu pegava livros da biblioteca da escola e ia me sentar embaixo de alguma mesa para ler. Um dia, eu consegui pegar um de mistério e suspense. Eu o surrupiei da minha mãe e li inteirinho numa tarde e noite adentro, usando a minha lanterna debaixo das cobertas para não levar bronca. Era da Agatha Christie.

Um mundo novo se abriu para mim e eu devorei todos os livros dessa mulher. Minha mãe trazia uns cinco exemplares por semana da biblioteca do banco em que ela trabalhava.

Naturalmente, fui ficando cada vez mais crítica com o que eu lia. Minha vida social – sabe-se lá como – foi ficando cada vez maior e complexa, as conversas iam adquirindo profundidade, testando novos pontos de vista e outras referências. Obviamente passei para a fase dos conflitos internos, existenciais e sexuais. Henry Miller, Kerouac, Sallinger, John Fante, Bukowsky me representavam muito. Toda a angústia de ser jovem, de ser sozinho, de querer desbravar o mundo ouvindo Bob Dylan e pedindo carona na estrada; de fugir da realidade de novo, só que dessa vez usando drogas ao invés de pura imaginação. Até Thoureau eu li (e tinha que ser do sebo, não podia ser novo. Esses livros precisavam ter passado por outras mãos. Ah, essa fase besta).

Tive a minha fase Clarice. Quem nunca? Virginia Wolf e toda a vontade de ser transgressora intelectual, filósofa livre, sem escola, sem documento, só com as palavras como diploma. É, eu tive esse sonho.

Tive a fase latina. Os contos me ajudavam a entender que a vida é episódica. Um conto após o outro, sem mistério, sem dor, personagens ordinários vivendo o cotidiano, enquanto o extraordinário acontecia na minha cabeça. Gabo, Cortazar e Borges. Todo o realismo fantástico da vida em formas livres e latinas. Eu lia em espanhol porque a língua portuguesa – na minha opinião de chata – era incapaz de passar o que esses autores queriam dizer. Eu tinha camiseta do Cortazar, gente. Eu descia a Augusta de peito aberto para dar um pulo no cinema, depois no Neto Discos e depois no Sarajevo. E lia gibis. Adorava gibis.

Tive a fase Foucault, Deleuze, Nietzsche, Lipovetsky. Chata. Eu era muito chata. Vou te poupar do meu pseudo intelectualismo porque era bem difícil. 

Só me recusei a ler tudo de Bauman porque me deprimia mais do que o resto.

Daí, bem, entraram os livros de trabalho, inovação, era digital, hiperconectividade e que eu tinha que ler. Mais do que ler, contar que tinha lido. E então? Eu lia resumos, lia na internet, nos blogs de quem já tinha lido.

Fiquei um tempo querendo ler só o que tinha ganhado Prêmio Nobel e Pulitzer. Gostava, mas não terminava todos. Entrei forte no surrealismo e li tudo de Haruki Murakami. Ele me deixava acordada e em estado de sonho por 24 horas. E a sensação foi boa. Me lembrei que adorava ler ficção.

Adorava ler e assistir à ficção.

Depois que comprei o Kindle ficou mais fácil. Primeiro porque é mais barato e segundo porque eu não fico acumulando aquele monte de best-seller com capa de filme (tenho um pouco de preconceito, é horrível, mas eu odeio essas capas).

Mas enfim. Tudo isso para dizer que voltei para Agatha Christie.

Voltei para os livros de mistério e suspense policial, que me deixam acordada a noite toda e que viram filme depois de uns anos. Também parei de ver só documentário e filme iraniano e voltei para os braços hollywoodianos.

Acho que a razão para isso ter acontecido é que eu agora leio tudo isso como forma de desligar meu cérebro e me divertir, sem culpa e sem pressão. Me preparei para isso a vida inteira. Antes, tudo era novo e profundo. Até triste e pessimista, como os nossos dois últimos séculos. Li tudo o que eu li porque precisava dar valor para meus livros superficiais e entender que o que eu sempre gostei é pura e simplesmente um reconhecimento de mim mesma. Alguém que ama muito boas histórias.

Lu Minami

Lu Minami

Publicitária não-formada (porque pegou DP de educação física), uma generalista apaixonada por detalhes, exploradora de cidades e seus cantos secretos, leitora compulsiva e devoradora de séries. Ainda acredita no amor, mas diz que não.
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