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#WeSupport – Alma de Batera

alma de batera | foto: divulgação
Foto: Divulgação/Facebook

A sociedade é excludente. Caminhamos para o décimo sétimo ano do século XXI e os direitos continuam avançando a passos de tartaruga manca. Mas tem gente disposta a fazer a diferença. Façamos uma breve viagem no tempo.

Na década de 90, Cláudia Werneck – progenitora da atriz cômica que carrega o mesmo sobrenome – se sentiu extremamente incomodada com o conformismo de uma sociedade ignorante quando o assunto era Síndrome de Down. O sentimento fez com que a jornalista dedicasse parte da carreira buscando o máximo de informação para escrever o que viria a ser o primeiro livro sobre o assunto no Brasil.

Assim como Cláudia, Paul Lafontaine sentiu que estava na hora de descruzar os braços e fazer algo de diferente. Foi depois de realizar alguns trabalhos voluntários que o baterista resolveu empregar sua habilidade com as baquetas para dar início ao Alma de Batera.

Muito mais do que proporcionar a formação musical de crianças com Síndrome de Down, o projeto convida os alunos ao resgate da auto-estima, fortalecimento de ligações afetivas e aumento da capacidade de autorrealização.

Trocamos alguns e-mails para entender um pouco mais sobre o projeto. Senhoras e senhores, com vocês a palavra de quem faz a mágica acontecer…

De onde surgiu a ideia?

O Alma de Batera surgiu após algumas experiências de Paul Lafontaine com o voluntariado na área de inclusão de pessoas com deficiência. Durante muitos anos, Paul foi baterista de bandas que tocaram na noite paulistana, mas, num dado momento, a rotina de trocar o dia pela noite passou a incomodá-lo. Quando abriu mão do que ele mais gostava de fazer, surgiu a possibilidade de se aventurar em alguns trabalhos voluntários. Paul começou como voluntário na Fundação Dorina Nowil para cegos e depois também ajudou na equoterapia da Hípica de Santo Amaro. Com essas experiências, acabou se encantando com o trabalho voltado para este público e resolveu investir na faculdade de pedagogia, sua segunda formação. Nesse período, o professor de bateria de Paul indicou alguns alunos com deficiência para que ele pudesse dar aula de bateria.

Quem ministra e como funciona a dinâmica das aulas? É um trabalho feito de forma individual ou realizado ao mesmo tempo com todos os alunos?

A aula é ministrada pelo próprio Paul, sempre com a ajuda de um auxiliar para dar suporte. Formada por turmas de 4 a 5 alunos, cada oficina do projeto acontece semanalmente e tem duração de 90 minutos. Este formato possibilita o benefício da socialização e respeito sobre as limitações dos colegas, proporcionando também a auto-aceitação dos participantes. Sem seguir parâmetros rígidos de estilos, a dinâmica das aulas fortalece a criatividade e a sensibilidade do aluno. Com uma metodologia flexível e não linear, o conteúdo desenvolvido por Paul, especialmente para as oficinas, acaba se adaptando naturalmente à necessidade de cada um do grupo. Uma vez por mês, as oficinas contam com a participação de um músico/baterista convidado. Estes encontros visam aproximar os alunos dos seus ídolos, criando um ambiente de troca e participação de todos.

A metodologia é baseada no afeto e no respeito às diferenças. Consideramos que cada um de nós, além de únicos, somos fonte inesgotável de sensibilidade e potencialidade artística. Temos a convicção de que podemos ajudar a construir um mundo onde a deficiência possa ser vista com naturalidade e, acima de tudo, com poder de realização.

E como funcionam as apresentações dos alunos?

O ponto alto do projeto são sempre as apresentações públicas. Elas acontecem normalmente em períodos de encerramento de ciclo e também quando somos convidados a participar de algum evento. Semana passada participamos do encerramento da semana da diversidade e fizemos uma apresentação muito bacana. Convidamos baixista, guitarrista e vocalista para fazer uma jam session aberta com os alunos. Os alunos tiveram a sensação de participar de uma banda e o público vibrou junto com os alunos.

O objetivo maior disso é transformar o aluno em um cidadão formador de plateia e incluído no contexto cultural da cidade. As apresentações, além de expor o protagonismo deles, acabam transformando o olhar do público diante da questão da deficiência. Ao assistir um aluno completamente empoderado diante do instrumento, o paradigma de fragilidade se quebra. Todos ganham muito com as apresentações.

Há algum tipo de seleção?

O critério de seleção é o desejo do aluno em tocar bateria e ordem na lista de intenção de inscrição. Se ele tem muita vontade de tocar bateria, é o que importa pra gente. Não importa o tipo de deficiência porque o que motiva as pessoas é o desejo. Se há o desejo, o aprendizado será prazeroso e divertido, não importando a velocidade da evolução.

Quantas pessoas trabalham no projeto atualmente?

Somos um time de 3 pessoas. Feliphe Bremberguer no Comercial, Raquel de Souza na Comunicação e eu com as aulas. Como temos uma estrutura super enxuta, cada um faz de tudo um pouco.

Temos muitos apoiadores que trabalham no sistema pró-bono: agencias de publicidade, marcas de instrumento, assessor de imprensa, Consultoria em terceiro setor, advogado, contador, etc.. Muita gente acaba se apaixonando pelo projeto e acaba doando seu talento, o seu melhor.

E como funcionam as parcerias com os espaços onde vocês ministram?

A maioria das instituições por onde passamos (Sesc – Centro Cultural, etc) não consegue nos manter a longo prazo dentro da grade de atividades para evitar vínculo e dar chance e espaço para outras iniciativas como a nossa. No entanto, para que o aluno não perca os ganhos conquistados durante as aulas, um trabalho a longo prazo se faz necessário. Por isso, buscamos um patrocinador para bancar uma estrutura bastante enxuta do projeto (que não envolve locação de espaço, pois muitos lugares querem a nossa aula, só não tem como nos remunerar).

Além da busca por um patrocinador para viabilizar as aulas, atualmente estamos trabalhando em formas de trazer sustentabilidade financeira ao Alma. A ideia é que a venda dos produtos possa nos trazer uma fonte de renda para o projeto.

Somos um time apaixonado pela causa da inclusão. Queremos ser a fagulha que incendeia mudanças de percepção na sociedade, diante do que é considerado diferente e imperfeito.

 
Quer se tornar um aluno, voluntário ou mesmo patrocinador? É só entrar no site do projeto :)

Texto originalmente publicado em 31/03/2017 

Igor Amâncio

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
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