As noites que são dia – We Love

As noites que são dia

Amanhece um dia na noite do meu quarto. É sempre de véspera que as coisas acontecem: véspera de primeiro encontro, entrevista de trabalho, viagem e até de uma simples ida ao cinema. Tudo que é novo – e até certo ponto, incerto – é motivo para que meu teto se torne o mais belo céu de verão às três da tarde. Já falei sobre a insônia nessa coluna, mas volto ao assunto porque insisto em acreditar que escrever é uma bela maneira de exorcizar nossos mais odiosos demônios.

Estou conversando com um cara e ele diz que quer conhecer minha biblioteca particular. Ama Martha Medeiros e não lê poesias em voz alta porque acha falta de respeito. Convida-me para um primeiro encontro no café mais alternativo da cidade. Os pelos do meu braço se eriçam e penso que ele é a pessoa que sempre esperei, o protótipo de relacionamento perfeito, a própria alma gêmea que me vendem nas propagandas do dia dos namorados. Passo a noite acordado, roendo as unhas para encontrar o grande amor da minha vida.

Passei três meses procurando emprego e já perdi todas as esperanças de ser contratado por uma empresa que tenha os ideais mais ou menos parecidos com os meus. Desolado, já estou na terceira xícara de café e ainda nem são nove da manhã. Meu telefone toca e do outro lado da linha uma moça diz que meu currículo é interessante e eles querem conversar comigo. Minha primeira entrevista de emprego em uma empresa que prega o bom relacionamento, o livre exercício da criatividade e realiza ações humanitárias. Não prego os olhos; minha cama se transforma em calvário. Finalmente.

Consegui comprar uma passagem para o outro lado do Brasil. O clima está ótimo, o preço estava dentro do orçamento e eu prometi que nessas férias eu exploraria todos os lugares bonitos do Rio Grande do Sul com uma mochila nas costas. Está tudo pronto, saúde em dia, três meses de academia para aguentar o pique. De quebra minha amiga resolveu ir comigo porque casou das férias dela serem no mesmo mês que as minhas. O universo está alinhado e meu companheiro noturno durante todos os dias até o grande dia será o tique-taque ritmado do relógio que fica na parede da cozinha.

Faz quase dois meses que não vou ao cinema. Próxima quinta é a estreia de uma adaptação que esperei sete anos para ver. O elenco foi escolhido a dedo e está impecável, a trilha sonora parece que foi feita especialmente para a história e todos os trailers indicam que todas as partes fundamentais da narrativa foram cinematografadas. Compro o ingresso três dias antes e até a data prometida toda noite amanhecerá um dia no meu quarto.

A insônia tem nome, sobrenome e é uma amiga indesejada. Já fiz de tudo: tomei suco de maracujá, fiz yoga e tentei os mais loucos métodos que me ensinaram. Nada resolve. Se é véspera ela está lá, gloriosa e impiedosa, esperando para injetar uma dose exorbitante de excitação nas minhas veias fraquinhas. Insônia é bicho que causa ferimento difícil de cicatrizar. Uma vez acometido, fica difícil o sujeito mandá-la embora.

O pior de tudo é que todo dia é noite depois que a noite vira dia. Enquanto isso os insones dormem nos bancos de ônibus, nas cadeiras das salas e nos intervalos do trabalho. Dormem no meio do beijo, da música e da conversa. Dormem porque só têm sono nos momentos mais inapropriados. Eu entendo vocês.

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
Ronaldo Gomes

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