'Bicha' é resistência • We Love

‘Bicha’ é resistência

Foto: Queerty | Resistência Luta Direitos

Para a maioria dos homossexuais, o grande momento da vida acontece quando se assumir para a família se torna inevitável. Está todo mundo desconfiado, no almoço do domingo fica aquele clima de insinuação e, por fim, você chega e diz. As palavras que você sempre escondeu como um segredo muito secreto se tornam parte de uma concepção maior: parece que a partir dali você será “o primo gay” “o filho gay” “o gay da família”.

Comigo não foi assim. O grande momento da minha vida foi quando eu tomei a decisão de não me colocar em situação tão desconfortável de ser objeto de observação porque não estou dentro de tudo que eles esperavam. É difícil ser corajoso. Mas minha lógica era bastante simples: se ninguém precisou causar climão por assumir sua heterossexualidade eu também não precisaria causar climão por ser homossexual.

Esses dias, terminei de ler um livro do Benjamin Alire Sáenz. Para além de toda a beleza da obra – que conta a história de um menino tentando se encontrar no mundo – o autor trouxe para o centro da história um homem gay de 40 anos. Ele não tinha problema nenhum com sua orientação sexual, mas seu filho vivia sob uma sombra gramatical que o magoava profundamente: na escola, quando queria magoá-lo, chamavam seu pai de bicha.

Bicha. Uma palavra que também sempre me perseguiu. Uma palavra que é jogada no mundo com a intenção de ferir. Um português afiado que vai certeiro onde mais dói quando a gente é criança e está “se descobrindo”. Parece sempre que os outros sabem primeiro que você. Por isso a gente tem medo: quando nos chamam de bicha pela primeira vez – e depois e depois e depois – a pronúncia sai carregada de ódio, rejeição e acusação, como se estivessem desferindo um tiro certeiro em vítimas potenciais.

Crescer ouvindo que você é errado causa danos emocionais – quando não físicos – que são quase indescritíveis. Crescer sem referências na literatura, na música, na televisão é como a confirmação de que alguma coisa não está certa em você. Crescer sabendo que é bicha e ainda ter que “revelar o segredo” para a sua mãe – mesmo que “mãe sempre saiba” – é como ter que viver se rejeitando e se afirmando todos os dias. Quando decidi apenas ser, ao invés de contar, eu sabia que estava contribuindo para que as coisas fossem encaradas com menos estranhamento.

Ser gay, hétero, bi, assexual, ou seja lá o que você for é absolutamente normal. Nada deve ser segregado. Nada deve ser confessionado. A obviedade é tão antiquada que custa ter que ilustrá-la em pleno século XXI. Por ser segredo e por ser errado é que ainda morremos. Os dados são sempre mais cruéis com quem “se revela” “se assume” e não tem medo.

Por isso bicha ainda carrega um estigma. É uma das palavras mais eficazes na boca dos preconceituosos. Mas hoje bicha é resistência. Foi conclamada como palavra de honra e resistência. Porque é como a velha história do “se a vida te der limões, faça uma limonada”. Bicha foi transformada em símbolo de força e afirmação. O português na boca da ignorância nos deu um golpe e nós transformamos o golpe em linha de frente. Que coisa bonita.

Continuaremos resistindo. Ocuparemos espaço e seremos referência para toda a geração futura de bichas, como alguns poucos foram no passado para nós. Ademais, aguardaremos ansiosos pelo dia em que essa adjetivação fará tão pouco sentido que sua significação vagará no limbo do esquecimento e da ignorância – esta última já muito conhecida por quem a usa negativamente.

LEIA TAMBÉM: ESTOU GAY, E AGORA?

Gosto de assumir riscos e nada mais arriscado do que dizer tudo que vem me acelerando o peito. (1)

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
Ronaldo Gomes

Últimos posts por Ronaldo Gomes (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *