A burocracia dos sentimentos

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Ando pensando que está difícil manter relacionamentos sinceros, saudáveis e prazerosos de uns tempos para cá. Há sempre uma palavra não dita aqui, uma mágoa guardada acolá e assim seguimos a vida colecionando jeitos estranhos de demonstrar o que sentimos – ou pior, uma maneira burocrática de criar laços e cultivar afetos. Não sei se isso é um incômodo geral ou se só eu estou tendo dificuldade para lidar com relações que cada vez mais parecem repartições públicas. Não gosto de lidar com os trâmites que tornam as ligações humanas tão subentendidas – me perdoem.

As coisas não precisam ser tão práticas e diretas (o abraço silencioso é bom), mas custa lançar mão dos joguinhos que cansam e desgastam o gostar do outro? Sincericídio é uma arma potente e devastadora cujo uso milito contra, mas guardar a raiva não te faz explodir por dentro? E aquele ciúmezinho provocado, que no começo é fofo e depois se transforma em um espetáculo privativo só para ver se o outro está disposto a brigar para te ter ao lado?

Cansam-me todas essas coisas. Cansa-me o não dizer, o não demonstrar, o não se importar. Cansa-me a frieza, a cobrança e a repetição e propagação da política do distanciamento. Houve um tempo em que escrevíamos cartas e nos debulhávamos de amor pela outra pessoa – vou usar o rebuscamento gramático para demonstrar a nostalgia de um tempo que não vivi – e isso não era considerado antiquado. O gostar já foi mais valorizado e disso tenho saudade.

Está se criando um misticismo exótico acerca das relações que se estabelecem no medo que cultivamos do não retorno. O ser “trouxa” está impedindo que as pessoas mergulhem nos relacionamentos e mantenham diálogos abertos e francos sobre como se sentem e o que estão dispostas a doar. Se você dá um passo nessa direção tem sempre um diabinho no seu ombro sussurrando “imagina o vexame falar que gosta dele primeiro, não pague esse mico”. E o mico ganha proporções gigantescas se a outra pessoa também estiver intoxicada por essa ideia do não apego.

Eu sei que as pessoas são cruéis e que as relações – principalmente as amorosas – carecem de cautela. Mas qual é o limite da cautela e da burocratização dos sentimentos? Acho que talvez seja essa busca que todos devemos empreender. Se importar faz bem para o coração e deveria ser prescrito nos consultórios de cardiologia. Dizer que gosta, perguntar como foi o dia, demonstrar que o outro é importante nunca esteve tão em baixa, mas o que estamos fazendo para preservar esses costumes benéficos para as relações?

Enquanto isso casais hesitam nas salas escuras de cinema (quem deve tomar a inciativa do beijo?) e amigos engolem a seco o rancor (eu não vou ceder, ele estava errado!). O arquivamento dos sentimentos transforma o que era para ser simples, divertido e caloroso em algo enfadonho e mofoso.

Por isso digo e repito: apeguem-se. Provem que a humanidade, mesmo que enferma, ainda existe. Beijem demorado e digam para o outro que o abraço dele é bom. Mandem mensagens de bom dia sem se sentirem culpados – ou sem se perguntarem se a outra pessoa acordou primeiro e ainda não falou. Doem-se. Se o coração for partido – e certamente algumas vezes será – o tempo cura (o clichê é verdadeiro, falo por experiência). Vamos escrever manifestos em praças públicas: DESBUROCRATIZEM OS SENTIMENTOS.

Se a moda pegar, ficarei feliz da plateia, vendo o desfile de mãos de dedos entrelaçados que confirmam: emoções postas para fora é o melhor jeito de preservar o que a gente sente.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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