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Com a mesma determinação que decidi guardar momentos singulares deste ano em uma caixinha de madeira, ajoelhei-me no chão e os atirei me apoiando na tampa da lixeira. Tamanho arrojo para tanta inocência.

São duas as minhas falsas trapaças. Os registros de instantes podem ser facilmente alocados num recipiente na estante a fim de serem recordados em dado momento oportuno (como defini que deveria fazê-lo na conclusão de 365 dias). Contudo, prontamente, reconhece-se que sejam meros papéis. O caminho percorrido do vivido ao toque da caneta no papel não é capaz de transpor memórias. São registros. Elas, todavia, seguem aqui, comigo. Primeira trapaça.

Optei por me esvaziar, inutilmente, desta forma. A minha tendência ao metódico já me impedia de seguir a rotina de relatos desde o momento em que havia experimentado algo tão bom que não tinha tido tempo e disposição para salvaguardá-lo. A verdade é que, geralmente, quando você se ocupa da vida, o interesse consciente em proteger memórias torna-se ainda mais furtivo. Em certas situações, me pego pedindo para que meus olhos não se esqueçam de determinada imagem. Aconteceu isso quando em minha mira meu avô pareceu ter atingido a plenitude num evento de família. Pedi para que aquilo nunca se desfocasse enquanto o olhava – ficasse. Cheguei em casa e o guardei também na caixa.

Ao decidir despejar aquilo que havia passado, no entanto, percebi que o que lhe é capaz de produzir encanto não só se agarra com afinco como manifesta a sua onipresença. Assim como armazenar não é garantia de lembrança, destinar levianamente reminiscências à lata do lixo não é promessa de esquecimento. Eis a segunda ilusão.

E talvez, desse modo, o meu experimento torto tenha alcançado o seu propósito. Não há espaço – na definição, tanto lugar quanto universo infinito – melhor para o vivido que o da memória. E ela continua.

P.S.: A experiência falha foi interessante até em seu último momento melodramático. Balançando-me entre o medo e a curiosidade, tratei de abrir alguns papeizinhos atirados à lixeira. A proporção entre feridas e boas recordações – das quais eu não me recordava com a qualidade dos detalhes – é fascinante.

P.S. 2: A caixa em si já é uma lembrança. Ela veio da Índia, viajando com um amigo meu. Servirá para outros propósitos mais pueris e, por isso, libertadores.

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
Milena Buarque

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