Cansei de me esconder

Créditos: Pixabay

Me chamo Amora Alves, sou heterossexual e já uso Renew 25+. Há alguns meses, lancei um canal no YouTube chamado transFORwoman com a proposta de que, através de vídeos, meu processo de libertação física, mental e espiritual fossem registrados. Porém, não restringirei os conteúdos a tão somente isso. Pensei em mais. Pensei nos motivos que me levaram a querer estudar jornalismo aos 16 anos. Dar voz às pessoas que não possuíam.

O irônico é que eu mesma era uma pessoa sem voz, que se escondia em mentiras, querendo que outras pessoas tivessem uma voz para que eu as fizesse serem ouvidas, sem utilizar a minha própria voz para gritar minhas dores. Felizmente, essa época acabou! Por esse motivo que, ao invés de uma conversa em família, íntima, velada e secreta, eu decidi ter uma conversa em comunidade. Uma conversa de sociedade virtualizada. Uma conversa com o que há de concreto, em termos de representações, dos indivíduos que compõem a sociedade brasileira como um todo. A Internet, redes sociais e o YouTube me permitem isso.

Em todos os redutos que atualmente representam o aspecto virtual-mental da sociedade brasileira, eu vim a público como Amora Alves. Eu apaguei, onde foi possível apagar, registros que um dia estiveram públicos com meu antigo nome. As pessoas da internet, esta incrível família, me acolheram com um respeito e compreensão maior que a tradicional família brasileira, que, infelizmente, se encontra presa na cegueira. Não conseguem ver a dor e o sofrimento que há em ser o que se espera que você seja, mas não quem você realmente é, nem que a transformação física-material, nesse momento, mesmo que a barriga doa, é o que há de menos relevante.

Há uma crença de que, através de apoio e base, com amor, com respeito, com consideração e entendimento, com confiança, com fé, com dedicação e esforço, sonhos se tornam realidade e recursos materiais, por mais importantes e relevantes que sejam para concretização de alguns aspectos, é o mais irrelevante nos fins das contas nesse processo. A família virtual brasileira compreendeu perfeitamente o que verdadeiramente importa; a família tradicional brasileira não faz ideia de como lidar com a situação, ainda presa na falta informações e de conhecimentos, acreditando que necessita de muito para se ser quem realmente é.

Quem é Amora Alves? É uma nova pessoa? É uma outra pessoa? Não. Simplesmente é alguém que eu sempre fui, mas, secretamente, quase ninguém conhece, porque eu quase sempre não me permitia ser eu mesma e nem permitia que as outras pessoas me conhecessem, por medo, vergonha e autorrejeição. Sendo assim, Amora Alves nada mais é que os desejos secretos de minha alma, que, finalmente, vêm à tona, ganhando vida e tomando forma, após anos de crescimento enclausurada nas profundezas do meu consciente, como uma lagarta gorda e faminta que finalmente sai do casulo bela, exuberante e graciosa.

Costumeiramente, as pessoas me questionam sobre quando eu percebi a transexualidade. Quando parei para refletir sobre isso, percebi que, inconscientemente, eu sempre soube, porém menti para mim mesma, porque eu não sabia que existia um termo específico para isso, não sabia qual era a definição exata do que eu era, fui covarde e tive medo de enfrentar tudo e todos. Exatamente por isso que acreditei na homossexualidade que me apontaram, porque era o que melhor se apresentava à época e onde eu me via perfeitamente encaixada, até um dia desses.

Além disso, ainda havia minha própria transfobia. Eu não gostava do tratamento que travestis recebiam e não queria de maneira nenhuma ser travesti ou passar pelo que elas passavam. Talvez, porque, secretamente, minha alma já sabia; já fazia ideia de que eu estava mais próxima de passar por tudo isso. Foi necessário conhecimento, leitura, informação, pesquisa, conversas e aceitação, para eu perceber o que eu era. Para compreender que aqueles desejos íntimos de infância de ser menina, era minha alma dizendo: “hei, tem algo errado!”.

A bem da verdade, eu sempre me vi como uma menina no corpo de menino, mas inconscientemente. Não era um produto de reflexão profunda, sobre meu papel social e meu local na sociedade. Até mesmo porque, no meu desconhecimento e ignorância, acreditava que eu nunca poderia ser uma menina e havia me conformado com as coisas como elas eram. Desconhecimento pode ser uma das piores coisas enfrentadas pelos indivíduos na existência.

Foi em 2013, quando passei por um colapso nervoso na universidade, devido ao stress de três exaustivos anos de estudo, com acúmulos de informações e conhecimentos, ampliação de visão de mundo, dedicação e pesquisa, bem como reflexões sobre a sociedade que temos e estamos construindo, que eu decidi chutar o pau da barraca e colocar a cara no sol. Mas não tão imediatamente. Eu precisava refletir se era isso mesmo e, então, fui atrás de informações para me entender, porque eu já não sabia mais quem eu era.

A ideia de um canal havia passado pela minha mente algumas vezes, mas foi conversando, recentemente, com um dos amigos mais importantes nesse processo de libertação de consciência, que começou em 2013, que ela ganhou uma forma consistente e percebemos que isso poderia dar muito certo. Percebemos que não havia nada do tipo, nem nunca ouvimos falar de nenhuma iniciativa nesse sentido. Ele já possuía conhecimentos sobre canais no YouTube e como se dava o processo de construção de audiência e de conteúdos para serem apresentados. A mim caberia contar a história; tornar público o que mantive em segredo durante anos. Isso me faria bem, me ajudaria a assumir para mim mesma e para o mundo, bem como ajudaria outras pessoas que não conseguiam se encontrar, nem encontrar respostas sobre si mesmas. Também forneceria coragem para outras enfrentarem as velhas convenções da nossa sociedade.

Olhando criticamente, o canal surgiu do nada, assim como a existência e seu Big Bang. Um simples pensamento “Por que não?” e a crença de poder ajudar muito – muita gente – já que eu mesma não tive nada disso enquanto crescia. Quantas outras pessoas trans não devem ficar loucas sem se entender? Para além disso, o canal também me fornecerá ferramentas importantes para que eu possa me curar desses vinte e cinco anos de opressão machista, porque ela ainda está lá fora e aqui dentro. É com ele que irei me empoderar para assegurar meu direito à vida, meu direito a ser eu mesma. Essa é a única coisa que eu quero: ser livre para ser eu mesma. Dizer meus gostos, sem me preocupar com julgamentos. Vestir minhas roupas, sem precisar me preocupar com o que forem dizer e deixar bem claro, para todas as outras mulheres, trans ou cis, que ser mulher é tudo de bom! E que de nada adianta uma vida inteira como homem, se for uma mentira.

Desde que o processo começou a ser real – concreto – e é tudo relativamente bem recente, eu já me sinto muito mais feliz, muito mais leve, muito mais verdadeira. Ainda há diversos fantasmas de opressão que me assombram, afinal, foram vinte e cinco anos de tortura e cárcere privado em mim mesma, onde eu não podia me expressar, eu não podia ser verdadeira sem passar por represálias, risos, deboche, chacota, humilhação, inferiorização e perda da humanidade. Ainda assim, de uma maneira troncha, superei tudo isso. Sozinha. Sem dizer uma única palavra a ninguém, mas me deixando marcas e feridas profundas.

Algumas pessoas próximas já me disseram “você sempre vai ser homem” e eu, simplesmente, me afastei, não mantenho contato. Mas, ainda assim, tenho medo. Medo de pessoas exageradas, psicopatas, assassinos, etc. Acredito que a ação deles, as repressões, tenham a ver com a ideia de que, no mundo onde Cristo morreu, não podemos ser felizes. Talvez, tenha a ver com o princípio da moralidade religiosa, onde o sofrimento tem que ser enaltecido, mas a felicidade reprimida. Isso é medieval e antiquado, no mínimo.

Eu fico doente com essas coisas e, exatamente por isso, que, nesse momento, estou me cercando das pessoas que me bastam para não sentir falta de ninguém externo. Com pessoas próximas, que me amam e que eu amo, sei que tudo fica mais fácil. Até mesmo porque o princípio básico da vida é esse, né? Você constituir família com alguém que você ama para viver em paz o restante dos seus dias.

Em casa, o problema não é religião, mas machismo estrutural. Isso me incomoda e dói bastante, mas tento me impor e enfrentar a situação sem baixar a cabeça. Meu irmão caçula, que é com quem eu moro desde a separação de nossos pais, já me disse muita coisa ofensiva, mas que sei que é reflexo da sociedade em que vivemos. Ele reproduz o que aprendeu. Ele já chegou a dizer que estou destruindo ele por dentro. Eu acho isso bastante problemático, mas só respondi que “a minha felicidade te destrói? Eu viver em paz comigo mesma te destrói? Bem, então você não será feliz. Porque a minha felicidade deveria ser a sua felicidade”.

Duas vezes na semana faço ballet clássico para me conectar comigo mesma, com minha essência, com quem eu verdadeiramente sou. O ballet é fantástico para isso: ajudar a libertar completamente minha feminilidade. Volto para casa utilizando a legging do ballet e ele disse que as pessoas zoam com ele, tiram sarro. A minha tristeza é que ele, ao invés de tomar uma posição, “meu irmão é irmã, é transexual e está se libertando, depois de anos de opressão”, ele toma as dores, se sente ofendido e despeja em mim, verbalmente, sua dor e frustração. Mal sabe ele que eu passei a existência toda ouvindo o que ele só está ouvindo agora. Penso que ele deveria ser o primeiro a comprar a briga, assumir que é isso mesmo, defender, impor que respeitem, aceitar e compreender. Não tenho escolha. Só de ser feliz – ou sobreviver infeliz.

Essas linhas mal traçadas são apenas uma tentativa de falar um pouco sobre quem eu sou e porque eu estou lançando um canal no YouTube de maneira tão expositiva, colocando em risco minha segurança e das pessoas que me cercam. Mas é que eu cansei de me esconder, de viver com medo, de viver uma mentira e eu clamo pelo meu direito à vida e à liberdade. O canal irá acompanhar todo processo de libertação e tudo que foi dito aqui, de maneira resumida, será dita de uma maneira mais extensiva e detalhada lá.

Eu me chamo Amora Alves e eu só quero colocar a cara no sol.

Amora Alves

Amora Alves

Amora Alves é estudante de Ciências e Tecnologia na UFBA, cocriadora e apresentadora do canal transFORwoman no YouTube, social media nas horas vagas e nerd em tempo integral.
Amora Alves

Últimos posts por Amora Alves (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *