Carta aberta para as amigas do meu ex • We Love

Carta aberta para as amigas do meu ex

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Até hoje, 9 anos depois, quando uso as palavras “ex-marido” ou “me separar”, me sinto uma senhora de 63 anos que toma chá com as amigas, às 16h, toda quarta-feira. Mas eu era uma menina de 19 anos.

Meu ex era (é) um cara boa praça, amigo de todo mundo, sempre com uma coleção de amigos e amigas atrás dele. Você deve se lembrar porque era uma delas e frequentou a minha casa várias vezes. No batizado do nosso filho, nos churrascos que a gente fazia durante a recém-adquirida maioridade e até em alguns aniversários. Apesar da insegurança relativa à idade, eu nunca tive ciúme de você ou nem de nenhuma outra amiga dele.

Quando tínhamos um filho e três anos juntos, descobri que ele havia me traído. Repetidas vezes e, inclusive, durante a minha gravidez. Não sei se ele te contava esse tipo de coisa, mas imagino que não.

O que eu gostaria de te dizer é que, quando você tem essa idade e se separa, o mundo parece acabar. Se é pra ser sincera, meu ego ficou muito mais destruído do que meu coração. E, em um desses dias em que parecia não existir um amanhã, você apareceu em casa.

Você apareceu em casa com ele para levar meu filho para passear. Não como namorada, imagino, mas como amiga. E doeu. Doeu não porque vocês pudessem estar juntos, mas porque eu sempre gostei de você e, no mínimo, você estava endossando as atitude dele. Você sorriu e agiu como se tudo aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

Para te contar a verdade, isso aconteceu muitas vezes e com diferentes pessoas. Você foi só a primeira. Eu vi gente da minha família dando tapinha nas costas do cara que não me respeitou nem durante a gravidez. Eu tive, veja só você, que ouvir de uma amiga que não me contou que sabia das traições porque ela também era amiga da outra menina, e como ela tomaria partido? No fim, o que mais doeu não foi a traição dele, mas a de muita gente ao meu redor. Hoje em dia isso é algo que apenas me incomoda e mostra como é a sociedade, confesso – eu até faço piada com isso. Mas naquela época, naquela idade e com aquela maturidade, eu fiquei puta com você da mesma maneira que estava com ele.

Puta porque eu fiquei tão em choque quando te vi entrando pelo meu portão, que não consegui ter reação. Eu não consegui nem perguntar aonde vocês iam e que horas iriam voltar com meu filho. Eu sei, às vezes demonstro ser essa pessoa que sempre sabe o que dizer e que não se importa muito com os outros, mas a verdade é que eu não sou assim. Eu paralisei.

Você não foi a única a passar pelo portão, mas foi a primeira. É por isso que hoje eu escrevo essas palavras para você. É por isso que hoje, quando eu te vejo na rua de batom vermelho ou alguém compartilha algum texto seu sobre ser mulher, eu espero que o seu feminismo te faça lembrar disso tudo. E que hoje você seja diferente. Assim como eu.

Ana Sasso

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

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