Carta aberta para os amigos de longe • We Love

Carta aberta para os amigos de longe

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A gente prometeu que não ia se afastar, lembra? Quando foi dado o veredito final de que nossos CEPs seriam de cidades diferentes, a gente se olhou no olho e falou: isso não vai mudar nossa amizade, a gente mantém contato. Uma vez por mês eu vou, uma vez por mês você vem. A gente dá um jeito de se encontrar no meio do caminho. A gente continua se falando, cria um grupo no WhatsApp. Vai ficar tudo bem.

É que nem sempre fica, sabe? A distância é uma droga e é a proximidade que gera intimidade que gera identificação que gera afeto que cria laços. No começo até funciona, a gente alimenta o grupo com memes e fotos do dia-a-dia e muitos “lembrei de você!”. Mas com o tempo o grupo da faculdade vai tomando espaço e o grupo do trabalho manda mais memes e a piada que eu fiz já não é mais tão engraçada pra você e, ao invés de falar “que piada nota 7”, você só manda um “kkkkkk” e deixa nosso grupo embaixo do grupo da comissão de formatura. O tempo vai passando e a distância vai tomando lugar, porque o Skype que a gente garantiu que ia fazer toda semana acaba substituindo o encontro pessoal que ia acontecer uma vez por mês e o encontro pessoal que ia acontecer uma vez por mês é substituído pelas datas icônicas e a gente acaba se vendo só duas vezes no ano: uma no meu aniversário e uma no seu.

Tudo bem.

Eu até entendo, sabe? Não é fácil verbalizar o que acontece na vida palpável, nem precisar contar histórias que exigem milhares de áudios, fotos, perfis do Facebook. É mais fácil contar pra quem tá junto na vida. Entendo.

Por aqui é assim também. Mas eu queria dizer que é possível, sabe? A gente podia fazer funcionar.

Porque a maior distância que tem entre dois amigos não é a entre um CEP ou um Zip Code e sim a distância de duas pessoas que não têm interesse em regar relações. E quando a gente prometeu que não ia se afastar, a gente se propôs a fazer funcionar esse negócio de “manter laços”. A gente propôs a usar caixa alta pra justificar urgências e a não deixar o fuso horário atrapalhar certas coisas. Se a gente aguentava noites em claro quando morava pertinho, a gente aguenta agora também (mesmo que os 10 anos a mais já comecem a fazer diferença).

Eu entendo que não é fácil, mas queria dizer que eu, aqui de longe, e você, aí de longe, ainda temos o lado de dentro do peito pra nos aproximar. E é aqui que a gente tem que se preocupar em estar. Porque aí, quando acontecerem os encontros anuais, semestrais, mensais ou qualquer que seja a periodicidade que nossas agendas permitirem, a gente vai saber que tudo continua meio igual. As vidas são super diferentes e a gente já começou a achar graça dos áudios e vídeos ridículos que são enviados em grupos de família, mas eu ainda sou a dona da risada escandalosa que deixa nossa mesa como centro das atenções em qualquer ambiente e você continua com o mesmo uniforme de calça jeans e moletom em qualquer estação ou ocasião.

É que nossa vida muda e a gente até muda um pouco, mas o lado de dentro do peito é sempre o mesmo. A gente só precisa se manter junto ali.

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
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