Do Morumbi a Marte sem escalas • We Love

Do Morumbi a Marte sem escalas

Decolagem de um foguete nos EUA

Spoiler alert: se você não assistiu “Que horas ela volta”, este texto estraga a experiência. PS: Não pedi pra concordar comigo, só estou dando a minha opinião.

Spoiler alert dois: se você não assistiu “The Martian“, este texto não estraga a experiência, mas acho que você não devia ler. PS: Repito. Não pedi pra concordar comigo, só estou dando a minha opinião.

Eu adoro uma sessão dupla de cinema. Adoro. Acho, inclusive, muito mais eficiente ir ao cinema para ver dois filmes do que para ver apenas um.

Pense comigo. Traslado de ida, coletar o ingresso, – idealmente compra-se antes – ponderar os benefícios e prazeres da pipoca, entrar na fila, comprar a pipoca. Xixi. Espera para entrar na sala. 

Aqui, uma pausa. Eu acho que cinemas têm que nos permitir reservar assentos. A tecnologia é barata e as salas de cinema não fazem mais do que a obrigação em nos oferecer esse benefício. Muitas ainda não oferecem. Isso é péssimo para a eficiência do processo. #ficaadica

Se a sala oferecer reserva de assento, a espera pela entrada na sala deveria se resumir a, no máximo, dez minutos. Em salas pré-históricas – ou de redes que não entenderam a dica – essa vai variar.

Trailers. Comerciais. Avisos de segurança. Filme.

Claro, tudo depende da cidade onde você está – Tem transporte público? Tem salas de cinema em todos os quarteirões? É fácil de chegar? – mas o processo até o início do filme leva de de vinte e cinco minutos a uma hora. 

Eu moro em uma cidade abençoada pelo transporte público, boas calçadas e muitas salas de cinema. Da minha casa até o “meu” cinema, são, aproximadamente, quinze minutos a pé. O resto da conta você já sabe.

Por outro lado, frequento uma cidade amaldiçoada pelo trânsito, pela falta de transporte público e pela escassez de salas de cinema. De onde eu estiver até um cinema, são, no mínimo, trinta minutos. E, muito possivelmente, de carro. O que acresce ao meu processo uns quinze minutos para achar onde estacionar.

Em ambos os casos, no entanto, o princípio vale; já que eu me locomovi até o local, por que não aproveitar e já otimizar meu tempo?

Um fator importante nessa equação é que eu, usualmente, vou ao cinema à noite, talvez no final de uma tarde. Sou animal tropical demais para achar que passar duas horas em uma sala escura climatizada – a não ser que ela esteja voando em direção a Salvador – faz algum sentido na vida de uma pessoa. Ou seja, minhas sessões de cinema ideais são as das sete e tanto da noite. 

Continuando a minha tese. Na média, hoje em dia, os filmes duram entre noventa e cento e trinta minutos. Ao final do filme são quase dez da noite: tarde demais para sair pra jantar – confesso, virei gringa – e cedo demais para ir dormir. Se eu conseguir emendar na sessão das nove e meia – entro nove e quarenta e perco os trailers – acabei de criar eficiência máxima em meu consumo de cultura e informação. Entendeu?

Não importa. O que vale é que eu adoro uma sessão dupla de cinema.

Fecha pop-up mental.

Esse domingo, enquanto todo mundo que eu conheço estava aproveitando o feriado prolongado em uma praia, eu estava na cidade amaldiçoada me sentindo num paraíso de concreto. Não ouvi uma buzina sequer. Não vi nenhum amarelinho na rua. Levei doze minutos de um bairro a outro, quando esperava levar ao menos quinze. A única fila que eu peguei – no Suri, às nove da noite do sábado – foi regada a cerveja, pisco e risadas. E fui ao cinema.

Admito; foi o mais próximo que cheguei do primeiro inferno. Na ignorância de quem não ia ao Kinoplex desde A Paixão de Cristo, achei que podia ser uma boa ideia. O banheiro do cinema é testemunha de que não existe êxodo urbano no Itaim.

Ainda assim, fiz uma sessão dupla. Comecei me perguntando: a que horas ela volta? E terminei me defendendo: eu quero ir pra Marte! Mas, Fe, o cara passa o filme inteiro querendo sair de lá.

Eu já disse, eu iria pra Marte.

Correndo o risco de soar politicamente incorreta: Regina Casé é o filme. (Se você já mora em Marte, estou falando do “Que horas ela volta”.) O resto é um exercício (esforçado) de roteiro. Sim, há momentos geniais; qualquer pessoa da minha idade, nascida e criada na minha condição social e com dois neurônios, reconhece a acidez inteligente da história e torce para que a Val tenha a lucidez de enxergar o mundo pela ótica de sua filha, ao mesmo tempo que tem vontade de dar uns bons tapas na bunda da menina.

Bem como qualquer pessoa da minha idade, nascida e criada na minha condição social e com dois neurônios, entende que o pai; a relação do Fabinho com a mãe; e mesmo Jessica, são caricaturas. Tudo isso funcionaria muito bem nas mãos de Jorge Amado mas, na tela do cinema, faz com que a mensagem seja menos direta.

Eu ri. Torci pela Val. Pensei na minha infância. Na minha casa. Nas pessoas que trabalharam lá. Lembrei com carinho da minha “babá” e fiquei irritada comigo mesma de não conseguir lembrar o nome de uma outra senhora que ficou conosco por anos, uma alemã brava, mas amorosa e muito boa pessoa. 

Pensei na minha mãe. Nas nossas rotinas e regras. E no que era “nosso” e no que era “delas”. Senti vergonha. Perdoei a mim e à minha família pensando em todas as coisas boas que tentamos fazer e ainda fazemos por várias pessoas que passaram por nossas vidas. 

O filme me perdeu na piscina e na cena do pai se insinuando para Jessica. Virou “para Inglês ver” e não “para Paulista pensar”. Regina merece os prêmios. Roteirista e diretora merecem um “porra, por que? Tava indo tão bem…”

Xixi.

Ingresso comprado. E18 e E19. Apertem os cintos. Bye-bye, Morumbi. Marte, aqui vamos nós.

Pode me criticar: eu sou fã do Jason Bourne. Acho ele uma simpatia. Inteligente. Autêntico. Queria vê-lo concorrer ao Oscar e ganhar. Se você também viu “Behind the Candelabra“, vai concordar comigo. 

Tenho três coisas a dizer sobre “The Martian“. Um. Eu iria pra Marte mesmo. (NASA, tá ouvindo?) Dois. Eu não achei nenhum erro de roteiro. Três. Nem mesmo o final. (E corria esse risco.)

Não. Nem o final.

Assim como Regina Casé segurou o Morumbi, Matt Damon faz o filme.

Claro, quando a câmera entrou na sala de controle da NASA pela primeira vez, eu fui ao delírio. E, quando eu vi o Will McAvoy como Teddy Sanders, torci para que ele fôsse mais Teddy. Me imaginei passeando pela Hermes, fiquei pensando na falta de explicação para a duração da viagem até Marte – no filme, leva menos de dois anos – e notei que os tênis das duas astronautas mulheres eram Nike. Mas foi Mark Watney (Damon) com seu senso de humor quase inabalável, que me manteve atenta durante os cento e quarenta e quatro minutos do filme. Mais do que isso, mesmo sabendo que ele passa o filme querendo sair de lá, fez com que minha torcida para que cheguemos a Marte o mais rápido possível aumentasse muito.

Quando chegamos ao Kinoplex, a ideia era ir a Marte e depois a NY; íamos assistir “The Walk“. Por conta da ineficiência de ter que estacionar o carro, mudamos a ordem e a viagem e eu acho que foi uma ótima combinação. Val, Bárbara e Jessica me mostraram o passado – em algumas instâncias, o presente – e Mark me ajudou a imaginar o futuro. E eu fiquei pensando: a Jessica foi para a FAU, o Mark voltou à Terra. E nós seguimos em frente.

Ainda bem que existem as sessões duplas de cinema.

Fefa

Fefa

Administradora, wannabe escritora. Tenho alergia a quem usa muito jargão, acha que design thinking é novidade e não respeita o tempo dos outros. Se eu pudesse viajar no tempo e conhecer uma pessoa, essa seria a Rainha Elizabeth I.
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