Clube Secreto dos Garotos Vulneráveis • We Love

Clube Secreto dos Garotos Vulneráveis

Clube Secreto dos Garotos Vulneráveis

Me sinto culpado e fraco quando choro. Exposto. Submisso. E não tenho culpa alguma por me sentir assim. Fui criado dessa forma: pra ser macho. Ao longo da minha vida, conheci pouquíssimos garotos “sentimentais”. Aqueles que posicionavam os discursos baseado mais no que sentiam e menos no que pensavam. Na verdade, devem ter se passado dezenas ao meu lado, mas eu, poucas vezes, os notei. Eles se escondem; eu sempre me escondi.

Numa peça da escola, no tempo em que “É o Tchan” ainda não era politicamente incorreto, me foi dado o personagem principal para interpretar: o Menino Maluquinho. Para quem não está familiarizado com a história, o livro é sobre um garoto serelepe e cheio de imaginação, cujo perfil no nosso mundo atual poderia ser considerado como hiperativo. Mas, lá atrás, não vivíamos de diagnósticos mentais – o que pode ser bom, ou ruim, não entraremos nesse mérito por agora. Na história em questão, o personagem tem um crush na professora e, eu, com uns 8 ou 9 anos, seria o responsável por dar voz a esse sentimento. Imaturo. Intocável. Ele não havia amado ainda, tampouco eu. Pensei na minha mãe, portanto, e todo o carinho que eu sentia por ela. E no palco: “que bonitinho”, murmuravam as mães da plateia; “o menino é bom”, sussurravam os pais. A professora de teatro com o olho brilhando me saudou: “você foi incrível”. Naquele momento, aquilo me bastou e preencheu. Hoje em dia, entendi que não havia nada de mais na minha performance; apenas um garoto em posição vulnerável.

É difícil ver os homens nesse papel. E quando acontece, as pessoas param para assistir, ouvir, aplaudir, criticar, julgar, oprimir… Mas elas param. Outro dia, lendo o livro Sejamos todos feministas, de Chimamanda, finalmente, entendi o quão ruim é para ambos os lados o machismo que nos oprime todos os dias. O machismo me impediu, por várias vezes, de chorar quando eu deveria. O machismo perpetuou o meu comportamento de imposição quando eu apenas deveria ter me calado e aprendido. O machismo me tornou mais fraco porque fingir coisas que você não é te torna mais suscetível ao erro. O machismo me fez querer tomar a frente para proteger as mulheres quando eu deveria estar ao lado delas dando suporte de coadjuvante. O machismo me fez o que eu sou hoje, mas não o que eu preciso ser – ou melhor – o que eu quero ser.

Como sociedade, apesar de falarmos sempre em evolução da espécie, há uma descrença generalizada que se instalou. Os especialistas apelidaram esse fenômeno como “a doença do século, depressão”. Traçando um paralelo simples com o que observamos no nosso dia a dia, pode-se chegar a uma conclusão simples: falta empatia. Empatia nada mais é, segundo o dicionário, do que “a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela”. Não precisamos ter um espírito crítico apurado para entender que não, não somos assim. Porque a nossa referência de poder, os homens, não agem dessa forma. E, infelizmente, ainda vivemos um mundo dos homens, um país dos homens, uma cidade dos homens, uma casa dos homens. Por mais que uma ou duas situações divirjam da realidade, ela continuará existindo enquanto fato por um bom tempo.

Numa mesa de bar, um outro dia, bem acompanhado de pessoas esclarecidas e, quase sempre, militantes, aleguei: mulheres são seres mais empáticos do que os homens. Houve divergência. Falta de concordância. Porque, no fim, isso nos coloca como diferentes. E é esse o motivo pelo qual o feminismo existe: para nos igualar. Mas, por mais perto que estejamos desse digníssimo objetivo, é preciso aplicar um paliativo: precisamos convocar a vulnerabilidade dos homens.

É necessário que não nos escondamos mais em falsas premissas, em expectativas externas e, mais importante, de nós mesmos. A vulnerabilidade pode até ser o mais difícil dos sentimentos, pois fomos educados a afastá-lo, evitá-lo, ignorá-lo, mas nada tem mais poder do que a disposição. A disposição de ser melhor e fazer do mundo um lugar mais justo para todos.

Chegou a hora de não sermos mais secretos.

Assinado: Um garoto vulnerável.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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