As coisas que entendi aos 20 e poucos anos • We Love

As coisas que entendi aos 20 e poucos anos

As coisas que entendi aos 20 e poucos anos

Essa semana eu brinquei muito a respeito do meu inferno astral. Botei nele a culpa de um apagão isolado no único cômodo da casa que pertence só a mim, o culpei pelo feijão vazando na marmita hoje cedo, pela chuva que tomei ontem e pela garganta que amanheceu doendo também.

E hoje é véspera do meu aniversário de 22 anos.

É véspera do meu aniversário e eu passei a tarde tentando consertar um problema na rede elétrica do meu quarto. E, porque fiquei tentando consertar a rede, não tive tempo de comer qualquer coisa quando cheguei em casa. Por isso, enquanto eu martelo esse texto (no escuro), estou jantando dois ovos cozidos, que fiz às pressas ao mesmo tempo em que passava roupa e aprontava a bolsa para amanhã, só pelo caso de eu não aguentar de cansaço e dormir com tudo esparramado pelo quarto. Mas, horóscopos à parte, eu acho que tudo isso é sinal de muita boa sorte.

Digo isso porque, enquanto eu me frustrava tentando entender a diferença da função de um fio branco e um fio preto que saíam do conduite para Lugar Nenhum, eu falava ao telefone com meu pai, que pacientemente me explicava que o tal do fio branco era de fornecimento e o preto estava a esclarecer, enquanto eu não enviasse para ele uma foto um pouco mais nítida da fiação. Naquele momento eu percebi duas coisas: do quanto, apesar das cobranças, da pressão para crescer, a gente chega na vida adulta sem saber muita coisa e do quanto eu tinha sorte de ter alguém, do outro lado da linha, tentando diminuir, pelo menos um pouco, essa falta de conhecimento de mundo que, às vezes, é mais forte que a gente.

Também foi muita sorte, hoje cedo, quando minha marmita vazou, eu ter um amigo para buscar papel toalha para mim, enquanto eu fazia malabares para tentar manter o resto do feijão no pote. Sorte porque também tive uma amiga para segurar o lustre enquanto eu falhava miseravelmente na emenda de um fio, da mesma forma que eu tive a sorte de poder rir de piadas internas, dessas que a gente só tem com pessoas que nos reconhecem pelo olhar. Tudo isso porque estou rodeada de gente que me quer bem e que tira sarro do meu drama e me ensina sobre um monte de coisas – todos os dias.

Foi uma imensa sorte sentir cada gota de chuva ontem, e também sentir cada chuva que caiu nos últimos 8030 dias. Se tudo der certo, com dor de garganta ou não, vou sentir mais uma porção delas até onde a vida me permitir. E vou correr em todas elas, com a barra da calça ensopada, gargalhando enquanto corro, como se fosse a primeira vez.

Sorte porque estar de barriga cheia já é muita sorte por si só, e porque tem alguém, com a vida tão de pernas para o ar quanto a minha, ocupado em saber como foi meu dia, fazendo parte de cada momento e deixando meu coração cheio também. Sorte porque estou cansada, com um monte de coisas para estudar e alguns capítulos atrasados, mas é tudo fazendo o que eu gosto e porque tive o privilégio de ter essa opção, então eu posso morrer de cansaço e de amor todos os dias.

A verdade é que esse último mês, bem como esses 22 anos, foram uma sucessão de boas sortes, de coisas boas e outras não tão boas assim, mas que estavam lá porque tinham que estar. Cada acontecimento faz parte de quem sou e essa força imprevisível e rara, que é a vida, é a maior sorte que eu poderia ter.

Joyce Vieira

Joyce Vieira

22 anos, sorocabana de berço, paulistana de coração. Amante da medicina e apaixonada por gente.
Joyce Vieira

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Comments

  1. Olá, minha cara! Acompanho o seu trabalho aqui no coletivo desde o seu primeiro texto. Estava me perguntando um dia desses quando é que leria novamente algo seu. Me surpreendi bastante ao ler a notificação de que estava de volta – e mais ainda ao me deparar com um textão delicioso desses!
    Eu adorei o trecho, e admito ter me identificado com muitas das situações citadas. Para os descrentes, inferno astral é, infelizmente, uma realidade, dura e frustrante. Porém saber aproveitar as coisas boas, e perceber que independente da situação há pessoas que nos amam, é um jeito otimista e saudável de encarar qualquer problema da vida – em especial aqueles que fogem das jurisdições terrenas.
    Enfim, parabéns pela ótima narrativa. Estarei aguardando, ansiosamente, por mais!

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