De boas intenções, as famílias estão cheias • We Love

De boas intenções, as famílias estão cheias

sapos | pixabay

Procurei em muitos dicionários o significado de “família” e, em nenhum deles, achei a palavra “amor” nas definições. Encontrei “conjunto formado pelos pais e pelos filhos”, “conjunto de pessoas que vivem na mesma casa”, “conjunto de pessoas que compartilham os mesmos antepassados” e afins. “Conjunto de pessoas que se amam” não foi o resultado. Como integrantes de uma família, nos é incutido que devemos amar todos os membros dela incondicionalmente. E aquele tio que não vemos muito deve contar com você sempre; o primo que mora em outra cidade também deve saber do seu amor e disponibilidade; a irmã com quem você tem nada em comum precisa saber que você está ali para o que der e vier. Não importa muito quando a família se junta para falar mal daquela tia ou do primo, é só amor. “Família é assim mesmo”, dizem. “Eu posso falar mal do meu irmão, mas ai de quem tentar fazer o mesmo”, bradam.

Se olharmos só a superfície, é comum pensar que as pessoas da família só querem nosso bem porque nos amam de forma plena, mas, se analisarmos de maneira mais detalhada, das entrelinhas, emergem crueldades disfarçadas: chantagem emocional, repressão, críticas destrutivas, cerceamento de liberdade, etc. Como consequência, abrem-se feridas profundas na alma. E, além delas, a culpa de tê-las. É difícil olhar para uma ferida que não deveria ter sido aberta, afinal, quem segurava a faca rasgou a pele só por acidente. Não é certo culpá-la. É cristão perdoa-la.

Há algum tempo, lendo artigos sobre psicologia, me deparei com um termo interessante: “Emoção Expressa”. Apesar de ser um termo comumente utilizado na psiquiatria, encontrei muitas características que podem ser transferidas para a rotina de uma dinâmica familiar não tão convencional, se é que posso denominar assim. A Emoção Expressa, se não me falha a memória, é uma medida do número de emoção nas relações familiares de um paciente psiquiátrico. É tipo um estudo do ambiente familiar que trata da qualidade da interação entre as pessoas da família desse membro mentalmente adoecido. Dentro das escalas globais de medição, está presente um tópico importante: criticismo. Os comentários críticos negativos são como um combo de outros dois índices, a hostilidade e o envolvimento emocional exacerbado. O mais intrigante, a meu ver, é o quão rotineiros eles são. E, veja, já faz tempo que observo certas dinâmicas familiares, não só a minha. Família pode ser destrutiva, por mais que seja pecado falar isso.

A obrigação que nos é imposta de amar e estar ligado até a morte a parentes próximos (ou não) é insuportável. Existem pessoas tóxicas em todas as estruturas familiares e a toxina pode ser muito nociva – às vezes fatal. Por muito tempo, senti uma culpa imensa por pensar assim, por me forçar a estar no mesmo ambiente que determinadas pessoas e me esforçar ao máximo para ser simpático e amável. Era exaustivo. Então, eu decidi que minha família seria constituída a minha escolha: algumas pessoas da sanguínea, que são realmente essenciais, e amigos próximos que se importam e procuram me entender.

Afirmar que este comportamento obrigatório de amar os parentes é repreensível e desnecessário ainda é um tabu grande. No entanto, é importante avaliar quem são as pessoas que, de fato, querem seu bem e atuam para que ele seja real. Querer o bem de alguém não é suficiente quando tudo o que você faz contradiz essa “vontade”. Afinal, alguém que foi ao inferno disse que o lugar é repleto de boas intenções.

PS. Não sou profissional da saúde. Psicólogos são sempre recomendados, não somente em caso de identificação com o que aqui está escrito.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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