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Diziam que eu era da geração Y. Geração que cresceu com internet, e trouxe com ela a precocidade do imediatismo. A crise do agora.

Cresceu com internet, mais ou menos. Um adolescente de hoje diria que aquilo era da “era dos dinossauros”. Com conexão discada, o ICQ revolucionou a forma de os jovens se comunicarem muito antes de sonharmos que o WhatsApp era possível.

Agora dizem que sou da geração que chutou o balde. Geração que buscou crescimento e reconhecimento a todo custo. Que em busca do sucesso, saiu correndo sem nem saber para onde ia.

Toda essa pressa nos deixou exaustos, e fez muita gente querer pedir para sair. Por isso, prefiro chamar a minha geração de geração da crise.

Para dar satisfação ao tormento generalizado, chegou o tal do propósito. A geração da crise está em crise porque descobriu que correr sem propósito não faz sentido. E ele, prometia vir para nos salvar.

Pensei muito no propósito. Fiz terapia do propósito. Dança do propósito.

Me disseram para lembrar o que eu queria ser quando era criança. Honestamente, eu não tinha grandes ambições profissionais. Queria usar salto para fazer barulho no chão igual à minha mãe. Queria também que minhas coxas de palitinho fossem iguais às dela. Acho que queria ser mulher, mas, aparentemente, este não é um emprego formal.

Resolvi então lembrar o que queria fazer aos 16 anos, quando supostamente eu estava pronta para decidir o que fazer pelo resto da vida. Lembro de sentir que poderia fazer várias coisas, mas disseram que eu precisava escolher. Descartei então a possibilidade de virar atleta porque achei que me obrigariam a fazer dieta. Pensei em ser psicóloga, mas achei que as pessoas só me falariam problemas. Resolvi ser publicitária porque gostava de ver anúncios de marcas nas revistas, e isso parecia ter futuro.

E teve. Até que depois de alguns anos, a crise me pegou. Grudou. Senti que decidi seguir o caminho do sucesso sem nem ter pensado o que isso significava para mim. Passava os dias gerenciando uma agenda louca, discutindo mais números que marcas e fazia tempo que não conseguia folhear uma revista.

Pensar em ter esta vida pelos próximos 30 anos me dava um frio na espinha, e vi que não ia encontrar meu propósito no meio de tanta correria. Decidi então parar em busca de mim.

Durante este tempo, percebi que ser psicóloga não teria sido de todo o mal, afinal eu já estou sempre querendo entender os problemas dos outros. Ainda gosto muito de marcas e uso meu lado psicóloga para analisá-las como se elas fossem gente. Continuo amando esportes, e aproveitei o tempo livre para fazer um triátlon e duas maratonas, as melhores coisas que já fiz na vida.

E foi assim, em vez de focar, acabei por descobrir um imenso amor por escrever, mudei de país, viajei para mais outros dez países, estudei escrita criativa, psicologia, francês, inglês e budismo. Buscando encontrar o meu caminho, acabei abrindo mais possibilidades. Encontrei inúmeras afinidades. Infinitas vontades.

Percebendo que me distanciava cada vez mais do propósito e sentindo o chão cada vez menos sólido sob meus pés, que o universo finalmente me mandou seu recado.

Um dia zapeando por TED Talks em busca de inspiração, me deparei com aquele que me daria perspectiva. Resposta. Respiro. Encontrei o vídeo que me apresentou a mim mesma ao apresentar os multipotentialites, termo usado para descrever pessoas com múltiplos interesses e atividades criativas. Segundo a teoria, é da intersecção de atividades aparentemente desconectadas que se gera inovação. Um jeito mais bacana de descrever as pessoas sem foco – pensei.

A natureza dessas pessoas as proporciona maior facilidade de aprendizado e adaptabilidade, qualidades que se perdem quando elas são pressionadas a focar numa única coisa, deixando de lado seus tantos outros interesses.

Depois de quase um ano de peregrinação, muitas vezes lutando por um chão mais firme para pisar, finalmente entendi porque me perdi. Entendi porque o tédio nunca fez parte da minha vida e minha curiosidade é tão infinita.

Aliviada, abandonei o peso de ter que encontrar uma única luz no fim do túnel para começar a iluminar eu mesma meu caminho. Não sei se sou da geração Y, da geração do balde ou da geração da crise. Sei que não sou da geração do propósito, e precisei de uma grande ruptura para me reencontrar.

Férias? Não. Fácil? Muito menos. Hoje, entendo que é preciso mesmo coragem para escalar esta montanha com tantos medos e incertezas. Mas é com um imenso sentimento de liberdade que hoje não sei o que farei no próximo ano, muito menos pelo resto da vida. Porque as possibilidades são infinitas, e me amarrar a uma delas seria um grande desperdício da minha alma.

Resolvi agora dar uma nova chance para as marcas enquanto estudo psicologia, aprendo um pouco mais sobre budismo e corro no meu tempo livre. Se não der certo, sempre posso chutar o balde e deixar tudo ir por água abaixo.

De novo. Com coragem. E o mais importante, de propósito.

Fernanda Granato

De São Paulo, formada em Comunicação Social. Trabalhou em marketing por dez anos. Aprendeu que felicidade deve ser o caminho e não o destino. Decidiu mudar de vida e de endereço. Foi para Londres com seu marido e seu único plano é fazer o que gosta e alimenta sua alma. Seus textos traduzem de maneira delicada e aberta, em palavras, sensações presentes entre os episódios cotidianos de sua vida. Também escreve para o Sweet My Sour.
Fernanda Granato

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