De todas as coisas que eu perdi – We Love

De todas as coisas que eu perdi

De todas as coisas que eu perdi

Já perdi as contas de quantas chaves eu perdi, um bolso furado, um descuido com a mão, um espaço apertado no ônibus e pronto. Lá vou eu outra vez no chaveiro, pedindo mais uma cópia da mesma chave.

Já perdi tantas vezes os meus documentos que já sei de cor o nome dos atendentes do Poupa-Tempo perto de casa. A dona Márcia já até me oferece um café e o Elias ri da minha cara fazendo alguma piadinha enquanto vou entrando. Mais uma vez.

Já perdi tanto dinheiro que eu nem quero fazer a conta. Moedas, notas, cartão de crédito… Quem inventou aquela frase que diz que dinheiro na mão é vendaval, deveria ter visto o furacão que acontece nos meus bolsos.

Já perdi até aliança – do tempo que eu usava essas coisas – no mar e precisei da ajuda de um monte de gente, que ficou mergulhando no raso pra encontrar aquele pontinho dourado brilhando no raso.

Nem me atrevo a ter coisas como relógio e guarda-chuva, porque se as pessoas normais já perdem, imagina eu, que tenho um buraco negro pessoal, quantos perderia por semana.

Já perdi bola, chapéu, meia, celular, CD, sapato, queijo, videogame, aparelho de barbear, garrafa, troféu, certidão de tudo, vaso de planta, peixe no aquário, batom, mais de um milhão de canetas e anotações…

Deve existir em algum lugar do mundo, um Achados e Perdidos abastecido só com as minhas coisas.

Estou tão acostumado a perder coisas que já nem me importo mais. Por isso que eu não entendi nada desse sentimento que se encontrou dentro de mim quando eu perdi você.

Minha vida seria bem melhor se eu pudesse ter corrido até o balcão de Pessoas Queridas Perdidas – serviço público, claro – para pedir uma segunda via de você, assim que eu me dei conta que tinha te perdido.

E não dá para, ao perceber que te perdi, voar para a loja de Você mais próxima e encomendar outra igual, ou outro modelo que o vendedor ia me empurrar, e sinceramente eu levaria como fosse, por medo de te perder de novo.

Eu nunca perdi outra de você. Então ainda não sei quais protocolos seguir pra te conseguir de volta. Eu mergulharia em todos os Sebos e Achados e Perdidos da cidade, mesmo indo contra a minha rinite, se soubesse que te teria de volta.

Eu sei que perdi você, e que, mesmo que eu refizesse os meus caminhos, olhando pra baixo pra achar onde foi q eu te deixei escapar, ainda assim não te encontraria de novo. Você não é do tipo que fica parada esperando no mesmo lugar.

Eu sei que não posso te substituir. Ficaria procurando para sempre, insatisfeito. Porque não há nada, nem ninguém, igual a você.

Então, queria te propor uma solução: Volta. Pode aparecer do nada, como se a gente nunca tivesse se perdido e dizer “oh estava aqui o tempo todo”. Ou me manda um sinal, de som, luminoso, ou uma placa bem grande escrito ‘AQUI IDIOTA’ para eu finalmente entender onde foi que eu te perdi e poder, a partir dali, tentar te encontrar de novo.

Fui eu quem te perdi. E te perder foi culpa minha. Mas volta, que eu prometo colocar uma daquelas fitas vermelhas apertadas no meu dedão e usar todo dia, só pra me lembrar de nunca mais perder você.

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Henrique Arana

Tem 27 anos, de São Paulo, mas pode chamá-lo de Rico.
Estudou publicidade e jornalismo, hoje trabalha em agência de propaganda em Curitiba.
Seu sonho é parar de escrever sobre produtos quaisquer e poder escrever de sentimentos, dele e de outros.

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