Desejo submerso

Ilustração: Ritchelly Oliveira

Quantas vezes, antes de sequer saber o seu real nome, Eco apenas o observava passar e partir. Ele tinha perdido o jeito com as palavras. Na puberdade, foi reprimido por ser tão falante. O silêncio trouxe consequências platônicas ultrarromânticas. Mas não era justo morrer de amor sem tentar vivê-lo.

Quando Narciso chegou, todos olhares o fitaram em contemplação; Eco seguia o ritual. Narciso não olhava para o lado, tinha um ponto fixo, estava atraído pelo azul da água. Seu reflexo foi companhia silenciosa por horas. Ao vê-lo isolado, Eco quis se aproximar.

Em sua mente, Eco ensaiava palavras e possuía uma coleção de escapes emergenciais. Narciso percebeu que alguém o cercava.

— Tem mais alguém aqui? – disse Narciso sem olhar para trás.

— Aqui? — respondeu Eco que viu-se perdendo todas suas palavras. Narciso olhou em torno, mas não viu Eco e disse:  

— Pra quê fugir? — perguntou Narciso. Eco respondeu com a mesma pergunta.

Quando finalmente Narciso disse: — Chegue mais perto!

Muito mais do que estar perto, Eco queria estar dentro de Narciso, tal como idealizara.

Eco já podia sentir o seu calor e Narciso continuava ali sem ao menos olhar para ele. Existia uma parede que os separava, mas suas peles já se tocavam. Narciso despiu-se e abraçou todo aquele brilho azul. Eco seguia repetindo suas palavras e ações. Sem compreender, estavam envolvidos num ritual que ambos desconheciam. Narciso só olhava para a água e Eco acompanhava seus movimentos. Ali, corpo a corpo, Eco deslizava suas mãos sobre o corpo de Narciso. Ele nunca esteve tão próximo, Narciso nunca esteve tão distante, mas, para surpresa de Eco, ele pediu:

— Eu quero sentir você ainda mais próximo!

— Próximo? – Sussurrou Eco que submerso se conectou ao corpo de Narciso.

O suor salinizava toda a água e seus corpos unidos acalentavam suas próprias necessidades. Por mais que Narciso se deixasse possuir, o seu olhar buscava na água a si mesmo. A necessidade superficial de sua carne contradizia o que o queimava por dentro. Eco transpirava ali todo o seu amor, sentia a abertura de seu amado, mas tudo evoluía sem reciprocidade. Ele queria estar frente a frente, não apenas dentro. Num súbito impulso, Eco envolveu seus braços em Narciso e o encarou transbordando o seu desejo em êxtase. Ele, então, contemplou todo azul que hipnotizava Narciso. As forças de Eco esvaíram-se e, num súbito estalo, Narciso gritou:   

— Afaste-se! — exclamou ele recuando. Prefiro morrer a te deixar possuir-me assim.

— Assim? — disse Eco.

Narciso submergiu-se por completo transformando o êxtase de Eco em pedra.

Publicado originalmente em março de 2016.

Gabriel Vasconcelos

Gabriel Vasconcelos

Redator publicitário por profissão e criador de histórias por puro atrevimento. Descontar em personagens o karma diário é a minha maior diversão.
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