Dez anos e a saga do tempo • We Love

Dez anos e a saga do tempo

moinho de vento pássaros holanda por do sol | unsplash Vincent Versluis

Como estará o mundo daqui a dez anos? Pergunto-me isso desde que vi Entre Nós, um dos melhores retratos do cinema dramático brasileiro. Em resumo: um grupo de amigos marcados pela sede incessante da vida que se reencontram dez anos depois para ler cartas enterradas no passado; no meio de tudo isso uma tragédia que deixou marcas que não são vistas a olho nu. Pronto, basta isso para se ter uma refeição rica em reflexões sobre o que nos mantém vivos e nos mata na rotina.

Pouco lembramos do que fizemos dez anos atrás e menos ainda podemos prever o que acontecerá em 2027, mas é um ótimo exercício imaginativo. Será que daqui a dez anos teremos mais amor, menos guerra e mais música boa? Será que daqui a dez anos teremos menos refugiados sírios, mais árvores plantadas e menos preconceito? Será que daqui a dez anos teremos mais estrelas no céu, menos crianças passando fome e mais honestidade em Brasília?

Mudam-se os anos, mudam-se as estações e mudamos nós. A passagem de tempo envelhece a pele, amadurece o intelecto e exige uma adaptação tal qual exposta na teoria evolucionista. Precisamos parar de achar que o tempo passa rápido demais e encontrar uma maneira efetiva de não travar batalhas épicas contra o dito cujo. Lutar contra o tempo é morrer com uma ferida exposta em campo de batalha. Seremos sempre a parte mais fraca.

O tempo é como a comida que estraga se colocarmos mais ingredientes que o necessário. Expectativas, dores, frustrações, traições, demissões, falhas, tudo isso fará parte da vida, quer você queira ou não. Mas o que você faz com tudo isso? Com que intensidade vive essas coisas? Quanto tempo demora para superá-las ou aceitá-las? Esse é o tempero pessoal e intransferível que cada um coloca na sua receita. O tempo é autêntico e imperdoável, mas cabe a nós aceitar de bom grado nossa parcela de culpa. Culpá-lo é fácil, difícil mesmo é assumir que somos humanos.

Daqui a dez anos quero ter lançado um livro, comprado uma casinha modesta no interior da Holanda, ter um filho me chamando de pai. Daqui a dez anos quero ter permitido ao tempo me deixar cicatrizes – escondidas, expostas, recentes, atemporais. Quero ser surpreendido pela piedade alheia, pela empatia, pela justiça feita sem sangue. Daqui a dez anos quero ter aprendido que dez anos atrás eu estava sentado aqui, escrevendo para não deixar que a passagem do tempo me matasse.

Não seja cruel consigo. Viva e deixe que o tempo faça a parte dele. Tenha ímpetos, aceite as inevitabilidades e saiba se aquecer em um abraço amigo. Fale pouco, muito, grite, corra no campo. Irrite-se, tome banhos em rios e não domestique demais o animal silvestre que carrega dentro de si. Deixe-se ir com o tempo e comece a chamá-lo pelo nome, sem temer. Daqui a dez anos você terá uma fotografia amarelada do que você se permitiu.

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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