O dia que entendi que não sou tão importante assim • We Love

O dia que entendi que não sou tão importante assim

O dia que entendi que não sou tão importante assim

Eu tenho um par de sapatos vermelhos de camurça. Devo ter roubado da minha mãe em algum momento da vida em que a gente precisa de sapatos bonitos e não tem. Eu nunca tive sapatos bonitos: tive a fase do all star, a fase da alpargata e a dos chinelos. Saltos e sapatos bonitos só entravam no meu #lookdodia com um casamento ou formatura agendados.

Quando entrei na empresa que estou hoje, precisei me readaptar: meus chinelos não cabem no dress code e voltei a usar o tal par de sapatos vermelhos de camurça. Tem chovido muito em São Paulo, cidade que honra o título de Terra da Garoa e alaga absurdos, tornando as principais avenidas intransitáveis, honrando o título de “Terra sem Gestão”. Tudo para. As últimas três grandes chuvas de São Paulo aconteceram quando eu
estava com meu sapato vermelho de camurça.

Camurça, meus caros, não é um tecido que se dá bem com água – vocês devem saber. Apelidei o par de sapatos de “leptospirose” e lavei os pés com muito sabonete, bicarbonato de sódio, Pinho Sol (minha mãe diz que cura tudo) e condicionador (a Gabi diz que cura tudo). Lavei os sapatos. Nas três ocasiões. Ficou muito clara pra mim a ligação: obviamente, a causadora das chuvas era eu, que insistia em usar o par de sapatos vermelhos de camurça. Não acredito em coincidências.

E aí eu me achei importante o suficiente pra fazer o céu chover. Pra alagar a cidade, ilhar o escritório inteiro e encher os ônibus. Que prepotência, não?! É só um par de sapatos vermelhos de camurça. Sabe o que é importante? O aquecimento global. A instabilidade econômica. A nossa insegurança política. A desigualdade social. As pessoas que ainda morrem de fome. Eu não sou nada demais – você também não, caso não tenha percebido.

Mas o que mais me impressiona é que eu não tinha percebido nada disso: até hoje cedo, tava achando que as chuvas eram culpa de uma coisa tão inofensiva quanto meus sapatos vermelhos de camurça. Precisei de uma chuva torrencial pra entender que um sapato é só um sapato e que eu não sou tão importante assim. Tomei muita chuva hoje, de novo. E a cidade tá parada, alagada e intransitável, de novo.

E aí eu entendi que não sou importante. Nunca foi tão bom entender que eu não sou importante. Porque aí eu não preciso carregar por aí a culpa do mundo inteiro. Não preciso passar sabonete, bicarbonato, Pinho Sol e condicionador no pé com culpa. Não preciso dar nome de doença pro sapato. Não preciso achar que a culpa do término foi minha só porque eu dei um toque pra uma amiga. Não preciso achar que aquela minha colega daquele meu emprego foi demitida só porque eu dei um feedback negativo. Não preciso achar que estraguei a noite de alguém. Que estraguei a semana de alguém. Porque não, eu não sou tão importante assim. E você também não é.

Ninguém faz chover. Nem parar. Ninguém tem tanto poder assim. A gente tem um poder ínfimo de ajudar a abrir uns sorrisos e alguma capacidade (que não deveríamos utilizar propositalmente) de fazer algumas pessoas se magoarem com as nossas palavras e atitudes, às vezes. Mas é sempre escolha do outro. Sorrir e chorar. Se importar ou não.

Acatar ou ignorar. Porque a gente só é importante pra si e pra um grupo seleto de pessoas que te deixam fazer parte desse ciclo doido de influência. E olhe lá. Quase sempre a gente não é importante, mesmo. Porque ainda chove em São Paulo. E meu pé tá ensopado. Mas, hoje, eu vim de sandália. E meus sapatos vermelhos de camurça estão em casa, secos, sãos e salvos. Irrepreensíveis.

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
Gi Marques

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