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Pelo direito de ser quem somos

a força de querer | reprodução: globo
Foto: Artur Meninea/Gshow

Recentemente por uma questão estratégica vim passar uma temporada na casa de minha mãe. Com essa retomada em minha história, retomei alguns hábitos que não faziam mais parte do meu dia a dia. Um deles era o de assistir televisão. Continuo não tendo o costume de acompanhar um programa específico, mas ontem, terça-feira, 9 de maio, sentei-me para ver a novela global das 21 h. De certo que considero a Globo a mais poderosa empresa de comunicação do país – e a mais manipuladora e imoral também, mas isso não vem ao caso. O que me fez parar para escrever esse texto foi a cena que vi, escrita com muita sensibilidade pela autora da trama, Glória Perez.

Começou com o personagem Nonato, motorista de um dos ricaços da novela, contando sua história de vida para uma prostituta. Travestido de mulher, ele narra sua trajetória para a mulher, enquanto a maquia.

Enquanto a cena está rolando na novela, ouço da cozinha o seguinte comentário:

– Credo, a Globo está apelando. Agora só quer mostrar as coisas feias. Isso é ridículo!

O comentário ainda ecoava na minha cabeça, como se fossem milhares de vozes ressoando ao mesmo tempo, num turbilhão avassalador que só foi interrompido quando uma cena de violência chamou minha atenção.

A personagem travesti contava que estava fazendo um show e seu irmão a reconheceu, enquanto ela cantava. Ele a perseguiu, a espancou e a expulsou de casa.

Tinha tanta dor em sua história. Tanta frustração por não ter sido aceita e acolhida…

Fiquei tão revoltado em ver aquela crueldade que a única reação que tive foi olhar para minha mãe e dizer:

– Qual foi o mal que essa pessoa cometeu? Ela só queria ser quem era.

Emocionada, minha mãe respondeu:

– É verdade! Ela só queria ser quem ela era!

Semanas atrás, assisti uma peça chamada Mil Mulheres e uma Noite, brilhantemente interpretada pelo grupo As Meninas do Conto. As histórias dAs Mil e Uma Noites são a base para as construções das narrativas que acontecem na peça. Durante duas horas de apresentação, histórias verídicas sobre violência contra as mulheres são brutalmente vomitadas sobre nós. A cada novo ato, um nó me apertava a garganta. Uma sensação de repulsa me tomava conta da alma!

Histórias, criadas exclusivamente para a peça, se confundiam às narrativas verídicas. Estupro, assassinato, sequestro e toda a sorte de tortura psicológica imaginável contra a mulher. E, sabe o por quê disso? Porque elas eram M U L H E R E S. O sexo frágil da nossa cultura machista.

Quantos de nós não sofremos as dores por sermos quem somos? Negros, brancos, gordos, magros, pardos, amarelos, gays, transexuais, travestis, heterossexuais, altos, baixos, ricos, loiros, ruivos, encaracolados, pobres, favelados.

Não seria mais fácil se pudéssemos apenas ser… humanos?

Sílvio Carvalho

Sílvio Carvalho

Sílvio é aquele tipo de cara que não gosta de rótulos. Às vezes acorda uma coisa, às vezes, outra.Às vezes príncipe, às vezes sapo. E às vezes, nem príncipe, nem Sapo. Vive assim, viajando nas ideias.
Sílvio Carvalho

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Comments

  1. Adorei seu texto. Tem uma parábola que acredito exprimir toda a força do significado de sermos nós mesmos. E aí eu vou pegar essa história emprestada do Judaísmo. É a história de um rabino chamado Súcia, que estava em seus últimos momentos, na agonia da morte, acompanhado por seu discípulo mais jovem e mais corajoso, que quis ficar ao lado do seu mestre nesse momento. Na alta madrugada o discípulo pergunta: por que estás tão inquieto? Súcia se vira, olha a janela, alta noite, se banha com a luz do luar, encara as estrelas, vira de volta e diz, com uma voz que tinha muito tempo que não jorrava tanta força: tenho medo do tribunal celeste! E o discípulo contra argumenta, você? Medo do tribunal celeste? Um homem tão justo, honesto, cumpridor de tudo que lhe foi proposto em vida, sempre tão bondoso, sempre teve uma palavra amiga a todos que chegaram perto de você, como você tem medo do tribunal celeste?”“ Tenho medo que me perguntem por que não fui como Moisés… Mas eu posso responder que eu não fui como Moisés porque eu não era Moisés. Tenho medo que me perguntem por que não fui como Maimônides… Mas posso responder que não fui como Maimônides porque não era Maimônides. O que mais me atormenta é, e se eles me perguntarem: “Súcia, por que você não foi Súcia”?

  2. Helena Fontes

    Muito bom seu texto César!!! De fato, está difícil ser simplesmente ser, ser humanos. Aff!
    Parabéns pela argumentação provocante em nos fazer pensar. bj carinhoso Helena

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