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Em meio ao Rock in Rio 2015, o que não faltou foi aquela carrada de “críticos do sofá”. Como sempre, aliás.

– Viiiixe, Rock in Rio com Ivete Sangalo e Rihanna?

– Aff, lá vem a Globo querer a supremacia total dos grandes eventos empresário-elitistas, movimentadores de comércio massivo voltado para as grandes e ignorantes massas…

– Esse Medina não sabe o que é banda de rock de verdade nem que esteja a um palmo de distância da fuça dele!

– Só tem POSER!

Opa, opa, opa, para!

É sobre essa última que eu quero discorrer. As outras são tão inúteis que só batendo com a cabeça na parede mil vezes para tentar esquecer. Como não tenho esta inclinação para auto-espancamento, vou tentar apenas ignorar.

Porém, a última colocação é questionável e, de fato, também me incomoda.

O que é ‘poser’ para você, caro(a) leitor(a)?

Poser vem do inglês que quer dizer ‘parecer o que não é, passar-se por’ algo. To pose na verdade é posar – para tirar uma foto, por exemplo –, mas o verbo evoluiu facilmente para o adjetivo diante daqueles que justamente, em frente às câmeras, parecem, mas não são.

Pois bem, no Brasil, é óbvio que iriam existir os posers também. Vivemos na cultura do capitalismo selvagem, do liberalismo do centrão fisiológico, do que vale o que se tem, então, é claro que iriam aparecer os posers que fingem ser o que não são por diversos motivos: status, fama, reconhecimento, respeito, etc.

Por isso que, indiretamente, a arte de ser ‘poser’ está ligada à arte do consumo. Já que eles têm que consumir aquilo que ‘os verdadeiros’ amantes de algo/alguém também consomem.

Oh, sociedade do consumo! Salve-me Baumann desta sociedade líquida!

Filosofias à parte, voltemos ao Rock in Rio. O festival é um produto – assim como o rock também o é. Um produto que vende, na sua ideia inicial pelo menos, junto com o rock’n’roll, uma diversão louca, uma experiência inesquecível que poucos viverão (apesar de serem mais de 80.000 pessoas, dependendo da edição), coisa e tal, tal e coisa.

Até aí, tudo bem, porque o festival foi feito para isso mesmo e o próprio Medina declarou em entrevista recente que não faz o evento para críticos. Faz para as massas mesmo. (Acho que ele nem precisava explicar, depois de Claudia Leitte isso ficou óbvio).

Porém, quando mexe com o bom e velho rock’n’roll… ah, cara, o bicho pega.

Geral de blusa preta. Check.

Coturno e/ou all star. Check.

Cabelos coloridos, piercings, tatuagens e afins. Check.

Camisetas do: Metallica, Motorhead, Ramones, Iron Maiden, System of a Down, Slipknot, Korn, Beatles, Led Zeppelin, AC/DC… Check, check, check, check, check!

Ok, você tem direito de usar o que quiser, acho certo. Aliás, sou a primeira a misturar estilos quando quero fazer algo de diferente com meu look (que nunca passa de preto, cinza e branco, mas vamos lá). É interessante e a moda, como qualquer outra arte, tem que ser misturada, revirada e reutilizada com criatividade e bom humor, na minha humilde opinião.

Mas, vamos lá.

Rock 101, ou rock básico que qualquer criança que desceu pro play agora aprende:

Camiseta de banda não é camiseta de moda. Ela existe com um propósito: mostrar que você ama aquela banda o suficiente para usar uma camiseta que, cá para nós, na grande maioria das vezes, não possuem as melhores estampas nem os melhores cortes e caimentos. É chapadona, quadrada, com um desenho muitas vezes irreconhecível, uma fonte louca cheia de pontas e o nome da banda lá, bem no meio. Ou então, algum desenho que, se não fosse daquele grupo de rock, todo mundo iria achar ridículo como a smiley face do Blink 182, o bonequinho de palito do Pearl Jam e por aí vai…

(Ed e toda a produção do Iron Maiden são exceções quando se trata de camisa, ok? Ok).

Então, na real, é questão de amor mesmo. Camiseta de banda é camiseta de time. Não use se você não curte. Não coloque se você não ouve. Ponto final.

O que dizer então dos piercings, tatuagens e cabelos coloridos? Coitados de nós, adeptos do rock-style. No mundo de hoje, isso já perdeu a graça.

Mas o pior! O pior que ultrapassa qualquer ultraje de camiseta, piercing, tattoo, coturno e bandana:

Poser, para mim, é, acima de tudo, o cara que tá lá, vibrando com a blusa do Metallica, que ele comprou por 25 pila na frente da Cidade do Rock, bebendo a sua cerveja, curtindo com os amigos, feliz da vida, e que não tem UMA história pra contar sobre como foi zoado durante todo o colegial por ser esquisito, idiota, fora do padrão, rockeiro de merda, maloqueiro, maconheiro, urubu, satanista, sem educação, sem pai nem mãe, drogado, má influência e má pessoa.

Se você nunca foi julgado sem justificativa por uma briga ou desentendimento na escola. Se nunca se sentiu só por diversos motivos (timidez, medo, impopularidade). Se nunca foi o último escolhido no time ou na dança. Se nunca foi o menos atraente porque nunca ligou para aparência e, sim, para quantas blusas, moletons e coturnos pretos você tinha no armário. Se sua sexualidade nunca foi julgada pelo seu gosto musical – especialmente no caso das meninas. A briga dos seus pais em casa nunca parava e isso doía o suficiente em você a ponto de que não conseguia esconder com sorrisos e saidinhas com os amigos. As coisas na sua família andavam tão ruins que você não podia mais suportar e se a situação no país, na sua escola, no seu bairro, na sua turma, estava tão injusta que você não suportava mais a ideia de viver com todos eles. Aquela paixonite típica da adolescência tomava proporções dignas de 2ª geração do Romantismo a ponto de que você não imaginava mais sua vida sem ele(a). O ódio que você sentia pelas pessoas era quase palpável e o choro quando vinha, era convulsivo ou engolido e externalizado em forma de exclusão.

Se você nunca teve um histórico desse, amigo, e curte rock’n’roll, você é, sim, um pouco poser.

Não se trata de quantas músicas você sabe, de quantos álbuns já ouviu, de quantos discos possui.

Trata-se de quantas letras já falaram por você, já te confortaram em momentos de angústia, foram lá no fundo quando você se sentiu diferente. Trata-se dos riffs nervosos de guitarra que te ajudaram de alguma forma e respirar fundo e pensar ‘foda-se’ e seguir em frente. Trata-se do prazer de encontrar fãs, iguais a você, que coincidentemente (ou não) também sofrem dos mesmos ou até mais cabeludos problemas que você e também por isso ouvem rock’n’roll.

Esses são os verdadeiros, sabe?

Se você ouvia na escola, se divertia fazendo rodinha punk, seus colegas também ouviam e vocês eram felizes com isso, eu até respeito e te dou esse crédito. Aliás, tem rock felizinho também, né, os californianos estão aí e não me deixam mentir.

Mas, na boa, para mim, rock é uma doença. Que se espalha lenta e dolorosamente. Dói, incomoda, traz o seu pior e te faz lembrar do seu melhor quando tudo parece muito ruim.

Como já diria Jack Black, em sua obra ‘Escola de Rock’, o rock é o som feito para você se levantar contra o homem! ‘Stick it to the man!’. Se você contraiu a doença, o ator justifica no filme que você contraiu ‘stickittothemaniosis’. Você não consegue ficar mais calado. Sua inquietação é grande demais. E sempre vai se expressar através da música.

Me perdoem se soei um pouco radical demais, até porque quem me conhece sabe que eu mesma não sou um exemplo de rockeira total. Respeito demais os caras para isso e tenho cara de pau de não usar uma blusa de banda que eu não tenha pelo menos encarado um álbum como life-changing para mim.

Mas já estive lá. Já vivi, já convivi e sei como é. Por isso que entendo esse argumento em específico daqueles que odeiam o Rock in Rio e festivais similares. Sei também que não temos controle disso – é uma festa grande, vai chover posers lá dentro, é claro. Mas deixa os meninos se queixarem disso, porque enquanto eles só reclamam sobre esse pequeno detalhe, sem maiores ofensas e nem agressões, tem gente que acha que eles não prestam para nada, são escória, sem futuro, imaturos e não são exemplo para ninguém.

Então, ei, poser, VAI TOMAR NO C*!

Maluh Bastos

Pernambucana, DJ em andamento, jornalista e aspirante em advocacia. De pouco a pouco, é alguém que acredita na liberdade de escolha e na igualdade social. Fã de harry potter e no âmbito da música aconselha sempre que siga seu coração e, nunca, NUNCA apenas o que todo mundo ouve.
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