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Ela ama Carnaval

Ela ama carnaval | Créditos: By Pichasso (Own work) [CC BY-SA 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Desce a avenida com os fios de cabelo no rosto, escondendo toda a vergonha que a move no resto do ano. Descreve-se como uma outra mulher, da sexta-feira a quarta de cinzas; mais travessa do que Gabriela, mais envolvente do que Tieta. Ah, o Carnaval! Ela inspiraria um romance de Jorge Amado, faria Chico escrever músicas sobre ela e Nelson Rodrigues cobiçar o seu corpo em sua pervertida mente.

Sobe com o bloco, vai até o chão e olha pros lados procurando algo/alguém que a desafie a não ser essa pessoa. Em nenhum instante, abaixa a cabeça. Seu pescoço, deveras fatigado pelo abatimento do restante do calendário, quer ficar erguido, permitindo-a que encare os olhares dos curiosos – aqueles que se acumulam nas beiradas, vacinados contra a espontaneidade dos dias de fevereiro.

Apoia-se em suas fantasias, despindo-se de pretensões pedantes; afinal, Carnaval não é sobre um. É muito mais sobre entrar pro coro e ajudar na afinação do que ser rainha de bateria. Por falar nisso, ela nem acredita nesses desfiles de escolas. Gosta da rua mesmo, da multidão, do beijo na boca do desconhecido conhecido.

Esse ano, ela escolheu alguns personagens para interpretar. E é bonito contemplar como ela gosta de abraçá-los! Pena que a gente não vai conseguir ver, pois ela repugna retratos; prefere que a única memória seja a dos seus olhos, vacilantes pelo consumo de álcool. As lembranças borradas escapam, às vezes, mas é melhor assim: deixá-las adormecidas, encaixotadas embaixo de saudações no elevador, reuniões vagas com falas fúteis, relatórios dispensáveis… Ou, pelo menos, ela acha melhor assim.

Por infelicidade, dias bons sempre passam rápido; então, logo logo, ela se fechará em sua embalagem de clichês, desejando apenas não ser notada. E eu daqui, olhando pra ela, querendo que todos os dias fossem Carnaval.

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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