Embaixo d’água – We Love

Embaixo d’água

Onde entrar em contato com sentimentos não é uma opção.

Tenho sonhado com água. Minha psicóloga dizia que água significa emoção. Talvez por isso que ontem eu estava com água até o pescoço.

Sinto cada célula do meu corpo e não tenho a menor ideia de onde fica o botão ‘desliga’. Um pensamento vestido de dúvida passa voando. Finjo que não percebo. Disfarço. Mas ele penetrou. Vai voltar. Sei que vai voltar. Queria encontrar aquele lugar onde você guarda suas emoções. Emoções reprimidas, dizem.

Ele voltou. Vomito emoções em forma de palavras carregadas de lágrimas enquanto corro no parque. Sei que vomitar é uma palavra feia. Mas foi isso mesmo que aconteceu, não foi? Eu deveria saber que correr seria arriscado. Tentei enganar minha mente. Mas ela que me enganou.

Vomito em você, que não tem nada a ver com isso. Sinto falta de ar. Paro de correr para respirar. Falo para você continuar, mas você fica. Se defende de mim. Diz que não tem culpa quando nem acusei você. Não entende que falo assim porque quero sua ajuda. Seu apoio. Seu ombro. Sem entender e me achando meio louca, você fica ao meu lado. Mesmo eu não conseguindo me mexer. Mesmo sem eu olhar para você.

Você se pergunta de onde vêm todas essas emoções. Sensações. Perturbações. Devo ser de um planeta distante, imagina você. Para você, foi de repente, eu sei. Você não viu o pensamento voando porque ele estava dentro de mim. Eu vi. Senti. Mas não quis me entregar. Tentei enfiá-lo naquele lugar protegido que você tem dentro de você. Já procurei em todos os lugares. Deus não me deu um desses. Achou que eu devia viver mergulhada. Mergulhada na água. Nas emoções. Ver as coisas submersas.

Como deve ser tranquila sua vida aí na superfície. Se bem que sua mania de arrancar pelos da perna parece um reflexo do que acontece lá embaixo. E você não quer sentir. Quer fingir. Omitir. Aí você deixa naquele lugar que você tem e eu não tenho. Mas não te culpo. Cada um vive onde tem que viver. Acho. Você na superfície. Eu no fundo.

Sei que vomitar não parece bom para você. Mas é bom para mim. É um processo de extração. Compreensão. Sabe? Uma coisa muito louca que acontece com quem vive mergulhado. Muita água passa em tão pouco tempo. Fico exausta. Não pelos quilômetros de corrida, mas pelos litros de água. Água com lágrimas. Água com sal.

Você sabe como fico cansada depois que choro. Tomo banho e não seco o cabelo. Não tenho energia. Lembro da minha mãe que um dia teve uma briga tão feia com meu pai, que ela quebrou alguns pratos. Acho que eram pratos, não vi. Estava chorando no meu quarto. Acho que ela também vive aqui onde eu vivo. Ela me chamou para conversar. Estava com os cabelos molhados. Exausta. Falou que ia ficar tudo bem. Que tinha sido uma tempestade. Água. Fico com os cabelos molhados porque também saí da tempestade. Espero o cabelo secar. A ferida curar. Ela sempre cura.

A vantagem de viver aqui é que tudo acontece muito rápido. Ontem eu estava vomitando em você. Amanhã estarei normal, daquele jeito que você sabe. Dou risada várias vezes. Pulo em você. Choro de felicidade. Lágrimas de alegria. Água.

Você acha que aqui só tem coisas ruins, né? Por isso você não quer vir. Mas aqui tem tantas coisas boas. Você sabe como é se sentir todos os dias abençoada? A sensação de felicidade me invade o tempo todo pelas coisas mais simples da vida. Por ontem, você ter me pedido um sorriso antes de dormir porque tinha me visto chorar. Por ter feito um sorriso nos meus lábios com seus dedos quando eu não reagi. Sou feliz por isso, sabe?

Continuo aqui no meio do mar. Eu sei, fui eu que escolhi. Olho ao redor e vejo pessoas vivendo na borda. Eu entendo, é mais seguro. Ainda enxergo elas de onde estou. Parece que ainda não fui muito longe. O que não vejo, é onde vou chegar. Eu sabia disso, claro. Mas, na prática, quando você está no mar e vem uma tempestade, você se pergunta que merda foi fazer aí. Desculpa, sei que você prefere que eu não fale assim. Mas é assim que se vive aqui no fundo. Mas, mesmo sabendo que a tempestade iria chegar, entendo que estou exatamente onde deveria estar. Na água.

Mergulho profundamente e volto para a superfície para respirar. Fico com água até o pescoço. Sigo esperando o dia em que vou enxergar o lado de lá. Que vou atravessar. De lá, posso ajudar a te guiar se você quiser. Mas você não vai poder vir de barquinho. Para chegar aqui, vai ter que mergulhar. Vem sem medo. Onde quer que você chegue, estarei lá para te esperar. Com amor no coração, e lágrimas nos olhos. Água.

Fernanda Granato

De São Paulo, formada em Comunicação Social. Trabalhou em marketing por dez anos. Aprendeu que felicidade deve ser o caminho e não o destino. Decidiu mudar de vida e de endereço. Foi para Londres com seu marido e seu único plano é fazer o que gosta e alimenta sua alma. Seus textos traduzem de maneira delicada e aberta, em palavras, sensações presentes entre os episódios cotidianos de sua vida. Também escreve para o Sweet My Sour.
Fernanda Granato

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