Ensaio sobre a viadagem – We Love

Ensaio sobre a viadagem

Pedrinho* tem hoje 9 anos de idade. É filho de um casal de amigos sensacional, que bebe com a galera, gosta de praia e sol, comparece aos aniversários e comenta nas fotos do Face/Insta/Snap/da próxima rede que surgir hoje ou amanhã. Eles são demais mesmo; daquele tipo de gente “fora da caixa”, que todo mundo fala: “putz, que casal fod*”. Mas eles são também pais do Pedrinho. E, como tais, são os detentores da construção moral e cívica de um ser humano. E é sobre isso que é o nosso texto.

Outro dia, estava na casa deles e ouvi: “não chora, porque chorar é coisa de menina”. Aos 3 ou 4 anos de idade, provavelmente, Pedrinho também não pôde escolher o brinquedo que quisesse, porque o ursinho Pooh “é coisa de menina”. Aos 12, Pedrinho será incentivado a beijar na boca e agarrar a coleguinha de sala porque “é isso que os meninos fazem”. Aos 14, Pedrinho não poderá, em hipótese alguma, deixar de jogar a “pelada” com os amigos no fim de semana. Aos 16, Pedrinho, se não tiver “comido uma menininha” até então, precisará resolver essa pendenga urgentemente, afinal “homem que é homem precisa ser garanhão”. E, por fim, aos 18, se Pedrinho não percorreu esses passos, ele será um “viadinho”.

“Ser viadinho”, hoje, é muito mais fácil do que era há quinze anos. Aos poucos, as pessoas estão aprendendo a conviver com a diferença e a entender que não precisa existir um padrão de comportamento – que pode existir um pino vermelho no meio dos azuis.

Atente-se: nesse texto, não me refiro à orientação sexual. Se você leu até aqui e não entendeu ainda, pode se retirar, por favor.  No agrupamento social moderno, “ser viadinho” ultrapassa a disposição sexual. É um inusitado modelo de agir e atuar, que confronta o machão “chopp e gostosa” e esbarra no gentleman “quase bobão”.

O “viadinho” é um cara mais sensível que não vê problema algum em sentar com oito mulheres numa mesa e falar sobre o que está acontecendo com a novela das nove. Ele pode ser também aquele que vai ficar puto quando uma menina não puder fazer algo por ser uma menina, e vai defender – acima de tudo – a igualdade entre os gêneros. É um homem que não entende por que arrumar o cabelo ou escolher a roupa da moda não pode ser parte do seu dia a dia. E o mais engraçado de tudo: ELE PODE CHORAR!

Talvez, um dia, Pedrinho se torne um desses indivíduos, homossexual ou não – já que as pessoas gostam tanto de rótulos. Talvez, na próxima década, teremos evoluído a ponto de respeitar as expressões das crianças em transição, dos adultos em movimento e dos idosos em arrependimento; no fim das contas, nunca é tarde para legitimar suas vontades. Talvez, num futuro breve, eu não precisaria escrever esse texto.

Quando esse momento chegar – vai chegar -, viadinhos, mauricinhos, trombadinhas, bruta-montes, nerds… Poderão ser apenas Joões, Felipes, Marcelos ou Pedros. Mas, até lá, na conversa de bar, de boteco ou mesmo numa rede social, é parte do meu dever dizer para o casal de amigos do começo do texto: “deixa o Pedrinho chorar, porque ser viadinho é bom demaix”.

Pedrinho* é um nome fictício para um personagem real. 

Adler Berbert

Adler Berbert

Editor do We Love. Jornalista, curte frases de efeito, acha que sabe jogar vôlei e está viciado em tirar fotos de anúncios nos postes da cidade. No colegial, foi expulso da banda marcial por não ter ritmo, mas ainda continua acreditando que tem potencial musical.
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Comments

  1. vc escreve tão bem que ensina com graça e sabedoria “muderna”a se ver o ouro lado da lua, rua.

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