Ensaio sobre o futuro • We Love

Ensaio sobre o futuro

ensaio-sobre-o-futuro

O melhor de estar de férias é perder a noção dos dias. Levantar-se para uma caminhada na praia e um mergulho no mar assim que o sol nasce. Fugir do barulho da cidade nunca foi tão prazeroso. Poder proporcionar ao Bento, pequenos momentos no meio da natureza, é o que me traz paz. Neste momento, ele vem ao meu encontro, ainda de pijama.

– Você não me esperou para mergulhar? – ele me acusa, fechando os olhinhos castanhos, numa cara de raiva. Eu sorrio para aquele pequeno, que tem todas as minhas manias.

– Você anda dormindo demais! – respondo-o pegando no colo. – Vamos tomar café e podemos voltar ao mar.

Enquanto ele vai arrumar a cama e tirar o pijama. Entro na cozinha, aquela janela, com vista para o horizonte, me traz devaneios de um passado nem tão distante. O reflexo dos raios de sol ilumina toda a casa, construída por vidraças estratégicas. A volta de Bento me desperta.

– O que temos para o café da manhã?

– Frutas, torradas e ovos.

– Eu realmente preciso comer mamão? – ele resmunga com cara de nojo. Essa criança precisa parar de copiar minhas expressões, eu penso. – Sim, já tivemos essa conversa, Bento.

– Ok… Em que você estava pensando? – ele quer saber, enquanto coloca os pedaços de mamão na boca. Bento está com 5 anos, quase 6, e ele me faz lembrar do Drew. Em como ele gostava de fazer perguntas. Fecho os olhos por um momento, revivendo toda aquela época.

– Estava pensando em como era a minha vida há alguns anos, antes de você existir. – digo sentando a sua frente na mesa do balcão e sorrindo. Ele mastiga, balançando a cabeça, me aguardando continuar.

Escolho as palavras para explicar o que está martelando na minha cabeça. Há uns quinze anos, vivemos um período difícil. Liberdades estão sendo reprimidas, pessoas estão sendo perseguidas. O meio ambiente está pedindo socorro. Finalmente, a população acordou para as escolhas que foram feitas no passado. Mas, às vezes, o antes tarde do que nunca é, sim, tarde demais.

– Lembra-se da história que eu te contei de que o Brasil da minha juventude não é o mesmo que estamos vivendo hoje?, digo e ele assente com a cabeça. – Hoje marca a data que tudo mudou.

– Quando o Brasil se dividiu?

– Exato, quando o Brasil elegeu um representante que menospreza as minorias, que não se importa com o meio ambiente nem com os direitos humanos e promove o ódio entre as pessoas.

– Mas as pessoas não sabiam que ele era assim?, pergunta enquanto empurra o pote com frutas. – Comi tudo, ele diz.

– Muito bem, baby. – sorrio e continuo, – As pessoas sabiam, mas a maioria escolheu o discurso de ódio e preferiu fechar os olhos. Quer ir mergulhar agora? – mal termino de falar, e ele já está correndo para porta.

A praia está logo à frente, a areia morna, a água quente. Sento na areia, enquanto o observo pular as ondas que chegam para beijar os seus pés. Ele ri, sacudindo o cabelo que se ilumina com os raios de sol. Respiro fundo, o cheiro de mar sempre foi meu calmante natural.

Bento vem ao meu encontro e me pergunta “por que as pessoas pararam de importar?”. É difícil, para mim, responder a essa pergunta, porque anos depois, eu ainda não sei muito bem o que aconteceu naquela época, com pessoas que eram próximas e que estavam escolhendo o lado do ódio. Não foi por ignorância, muitas estudaram comigo, também eram privilegiadas. Tiveram acesso à educação, saúde, alimentação, lazer, etc. Como explicar a um garotinho que a nossa sociedade é egoísta? Que existem pessoas que desmerecem outras pela cor de pele, região em que nasceu ou orientação sexual? Encaro aqueles olhos, que com o reflexo do sol, são da cor de mel.

– Filho, sabe quando eu te digo que você pode escolher o que você mais gostar na loja de roupas ou de brinquedos? – ele assente com a cabeça – Eu acredito que a sua liberdade criativa não deve ser limitada, que você pode ter acesso ao que tiver ao nosso alcance. Nem todo mundo pensa assim.

– Igual a quando falaram na escola que rosa é cor de menina? – ele se lembra da camisa rosa estampada com folhas verdes que ele usou outro dia na aula. Eu sorrio confirmando.

– A cor da camisa não muda quem você é. Você continua sendo o Bento. Algumas pessoas acreditam que existe um padrão a ser seguido. Que cabelo liso é o mais bonito, que a cor negra indica submissão, que falar “ôxe” é sinal de burrice, que família precisa ser um pai e uma mãe. Mas você sabe que isso não é assim.

– Sim, o tio Babu fala “ôxe”, assim como o vô e a vó. – ele começa a pensar. – A tia San é linda e ela não tem o cabelo igual ao seu. Ah, o tio Adler mora com um menino e eles têm um cachorro! O tio Loh também, mas eles têm vários gatinhos. – ele diz animado. Eu rezo para não entrarmos na discussão “quero ter um cachorro, de novo!”.

– Você acha que algum deles merece menos amor por causa dessas coisas? – eu pergunto.

– NÃO! Eles são a minha família também. Nós nos amamos. – ele conclui me encarando.

– Exatamente. Família é composta por amor e respeito. Porque todos nós somos diferentes. São as peculiaridades que nos fazem ser únicos e especiais. Você queria ser igual a todo mundo? – ele nega com a cabeça, balançando todo o cabelo. – Em algum momento, a sociedade esqueceu-se disso, que acima de todas as diferenças, nós somos humanos. – digo, ele levanta e corre para o mar.

A onda vem, ele pula e vira para me olhar sorrindo. Retribuo o sorriso, imaginando como seria se vivêssemos numa sociedade mais justa e mais igual. Ele volta correndo ao meu encontro e me abraça. “Nós vamos mudar o Brasil, mami”. Eu o aperto no abraço. “Sim, Bento, nós iremos.”


Eu espero não ter essa conversa com o Bento da minha vida real no futuro. Ainda há tempo de você repensar se o seu ódio é maior que outros seres humanos.

Bruna Guimarães

Bruna Guimarães

Jornalista & fashion lover. Made in Aracaju, living in São Paulo. Acredita que o amor é sempre destino e glitter, uma segunda pele. Louca por carnaval e mar e sorrisos e pessoas interessantes.
Bruna Guimarães

Últimos posts por Bruna Guimarães (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *