Por que as escolas deveriam abolir "religião" da grade escolar • We Love

Por que as escolas deveriam abolir “religião” da grade escolar

Livros e coração

Laico. Adjetivo substantivo masculino:

  1. que ou aquele que não pertence ao clero nem a uma ordem religiosa; leigo ;um membro l. da congregação;
  1. que ou aquele que é hostil à influência, ao controle da Igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos; é próprio de um espírito l. reverenciar o conhecimento científico;

O fato é que nunca tivemos um ensino laico porque não temos um Estado laico. Lembro-me como se fosse ontem: eu estava na terceira série (hoje, quarto ano), minha professora – muito religiosa – dava aulas de religião (ensino religioso é outra coisa) e minha amiga que era Testemunha de Jeová se negou a assistir à aula e a professora com todo a sua autoridade obrigou ela a ficar na sala de aula. A menina chorou e eu fiquei ali me remoendo para não tomar as dores dela. Hoje, eu me arrependo de não ter feito nada para defender a crença dela de uma professora que saía do seu papel de educadora para pregar um amor que ela não estava demonstrando.

Eu, como educadora, tento encontrar o lado positivo de colocarmos a religião numa grade curricular, mas não entendo porque fazer isso quando há tantas coisas prioritárias a serem resolvidas antes, como o repasse do dinheiro para as escolas estaduais empregarem o novo ensino médio. Sabia que algumas escolas já trabalham há um ano com o novo ensino sem nenhum suporte do estado? Elas se viram nos 30 e não há nenhum apresentador com um cheque para resolver os problemas financeiros. 

Quer colocar religião no meio acadêmico? Bom, antes de tudo é necessária uma estrutura sobre isso. Primeira coisa a se pensar é: religião ou ensino religioso?

Há uma sutil diferença entre uma que é pregar sobre uma determinada religião e outra em que haverá a introdução sobre as mais praticadas no mundo: catolicismo, judaísmo, budismo, protestantismo e islamismo, entre outras. Qualquer um poderá ministrar essas aulas ou será preciso uma formação?

Me vejo pensando em quanto isso pode prejudicar a nossa diversidade cultural.

O quanto isso será imposto e não debatido. Falar sobre doutrinas religiosas não é impor o que é certo ou errado dentro de uma sala de aula. O lado bom é que será desmistificado a ideia de que candomblé e umbanda são “macumba”; o outro lado (se é bom ou não depende do seu ponto de vista) haverá alguém que pregará que o satanismo é a verdade absoluta.

Há muito o que se pensar sobre esse tema e ainda mais a ser debatido. Não podemos enfiar a goela abaixo de alguém um assunto em que essa pessoa não terá a oportunidade de demonstrar sua opinião. Ah, mas você não entendeu bem… A aula de religião/ ensino religioso não será obrigatória. Será mesmo? Se sim, por que então gastar dinheiro com algo em que poderá não dar certo? Por que não aumentar a aula de filosofia, de sociologia, por que não incentivar o debate da ética entre docentes e discentes? Por que não incentivar um diálogo entre pais e professores, entre comunidade e escola?

Pode dar certo? Pode, lógico que pode. Eu acredito que a “fé pode mover montanhas”, mas a forma como isso será apresentado aos estudantes será de uma maneira em que o diálogo prevalecerá ou que uma doutrina e seus dogmas serão ensinados como a verdade absoluta? Eu ainda acredito que religião e política a gente não discute (pelo menos até que as duas partes saibam respeitar a opinião do outro). Também acredito que a religião dentro de uma escola limita os estudantes dentro de um mundinho quadrado.

O papel da escola é formar seres pensantes. Se a proposta for colocada em prática e nela conseguirmos falar de religião respeitando a opinião dos estudantes, se for feita de uma forma saudável, não vejo mal, porém se for para avaliar alguém de acordo com o que ele acredita ou deixa de acreditar, sinto muito: não dará certo! Não é certo.

*A autora é professora de uma rede de ensino particular religiosa e sabe que impor uma religião não é a melhor forma de falar de Deus/ Allah/ Jeová/ Buda/ Tupã/ Zeus/ Exu/ Edir Macedo entre outros.

Natalia Moreno

Natalia Moreno

Natalia Moreno é apaixonada por literatura, animais, músicas... Formada em Letras, pós graduada em Literatura Inglesa é autora dos romances Quando eu me amar e Marcas da Vida. Tem o defeito de querer colocar tudo em ordem, desde um quadro torto até o mundo e se desespera por este último estar fora do seu alcance.
Natalia Moreno

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