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Depois de perder a sétima vaga de emprego em dez meses, sempre por ter perdido tempo demais não estudando para trabalhar e ganhar o mínimo pra segurar a barra em casa desde moleque, resolveu que viraria o jogo ganhando no muque – e no grito – dos playboys que não perdiam tempo em o diminuir quando fazia seus bicos de garçom e faxineiro em festas e casas de bacana. Sem sua mãe, de quem ganhava os conselhos e estímulos para que ele não se perdesse da vida, que tinha partido por “falta de vaga” sem nunca ter tido ganhado nem um diagnóstico, ele não perdeu nem meia hora para ganhar as ruas longe das suas… Onde não ganhava atenção ou respeito.

Correria. Grito alto. Mão trêmula e cara amarrada, dedo no gatilho apontando para a o rosto que chora e PERDEU! PERDEU! PERDEU!, ganhou uma carteira. Suor frio, estilete nas costas e PERDEU! PERDEU! PERDEU! ganhou um relógio. Olhos atentos e inquietos procuram distração, acelera o passo, puxa o celular do bolso do engomadinho de camisa polo e PERDEU! PERDEU! PERDEU!, corre e ganha vantagem. Smartphone de bacana, bom pra #selfie, hashtag e post. Perde um tempo ganhando likes. Perde o medo. Até mesmo porque ainda dá pra ganhar um pouco mais.

Do outro lado da rua ele, que há pouco ganhou a promoção de cargo, perde um tempinho a mais jogando conversa fora no happy hour. Ganha mais alguns elogios dos colegas de trabalho ali presentes, olha o relógio, percebe que perdeu a hora e ganha tempo deixando uns trocados para o fechamento da conta. Agradece aos presentes, despede-se e sai pela porta do bar distraído entre as respostas das mensagens no celular e a mão que procura a chave do carro. Nem notou estar entrando em um beco que merecia um olhar atento e passos apertados.

Por lá, ele também passava, depois de ter ganho mais algumas perdas naquela noite. Avistou nele, que vinha perdido entre as duas tarefas, a oportunidade de ganhar o carrão em que estava parado ao lado. O gran-finale, a cereja do bolo.

Com olhos baixos que procuravam agora na pasta de couro a chave perdida, ouviu vindo de trás – PERDEU! PERDEU! PERDEU!, virando assustado com o braço em posição de ataque, a fim de evitar o roubo, o assustou batendo com a mão no cano do resolver de cano raspado ganhado em uma aposta.

E foi assustado com a reação dele que ele mirou de volta e apertou o gatilho, vendo ele cair no chão a sangrar. Perdido, mas sem perder a oportunidade, catou a chave do carro que havia escorrido para fora do bolso da frente da pasta dele.

Dele não levou mais nada. Não teve coragem de mexer no corpo que agonizava em uma respiração curta. Pegou as chaves, acelerou e perdeu o limite do acelerador pra ganhar aquele carrão. Recuperado a tiros, poucos minutos e metros dali, fazendo ele perder a vida. E por não ter a quem ganhar notícias suas, acabou perdendo a identidade. Por ele, cor de luto só o do saco do IML.

Naquela mesma noite, a mulher dele também recebeu a notícia da perda, acompanhada do ganho de uma apólice de seguro de muitos zeros a direita. Por ter perdido a coragem de morar perto da rua onde tudo aconteceu, comprou um apartamento para onde mudou-se, longe dali. Sem o seu companheiro de partidas de videogame para segurar o outro controle, o filho deles ganhou desses videogames portáteis, com o qual perderia longas horas distraído enquanto a mãe dormia com as pílulas que havia ganhado do médico.

De longe, há quem diga que a máxima ‘’todo mundo vai perder’’ não tinha nenhum nexo. Ou tem? Me perdi por aqui…

Delan Salazar

Tendo o nome do meu avô, a cara do meu pai e o humor pouco ortodoxo da minha mãe, pensei em usar a facilidade para escrever herdada da minha avó para ganhar o dinheiro que paga as contas. "Virei" redator publicitário, mas já quis ser professor de história.
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