Era só um sonho • We Love

Era só um sonho

Essa noite sonhei com uma cadeira

Foi só um sonho. Mas foi forte. Eu sonhei com uma cadeira. Não era qualquer cadeira. Era de couro preto elegante e lustroso. Tinha estofamento nem tão mole que afundaria marcando formas e nem tão duro para doer os glúteos, a maciez exata. Encosto também estofado e reclinável, alto, para recostar a cabeça quando necessário. Apoio para os braços, também em couro, firme não rasgaria nem com as mais fortes das unhas.

A costura, feita com linhas finas, demarcava o assento em três tiras, absolutamente simétricas. A base de plástico resistente e leve, não tomba para nenhum dos lados. Rodinhas lisas e novas, para deslizar pelo chão do escritório. Taco escuro brilhoso, deve ter sido encerado essa manhã, ou na noite passada, pela janela entreaberta – não consigo dizer que horas são, mas os raios de sol não têm força para alcançar a cadeira. Melhor assim, dizem que a luz do sol estraga o couro mesmo. Adornando a cadeira, uma mesa também escura, mas com acabamentos geométricos, modernos.

Um telefone e uma garrafa térmica se espaçavam solitariamente pela imensidão de toda aquela madeira. Nas paredes que confinavam a cadeira, além da janela, quadros. Nenhum deles com arte, todos com títulos e assinaturas importantes a ponto de estarem ali, junto à cadeira. Para chegar à cadeira, é preciso cruzar uma porta, o vidro fume recortado e encaixado, com nomes do lado de fora, embaça a vista de quem se aproxima.

Grossa, pesada. A maçaneta é brilhosa e escorregadia, para não deixar qualquer um olhar para a Cadeira. Eu sei, era só uma cadeira. Num sonho. Mas foi forte. Uma cadeira estofada, de couro, elegante. Sem companhia que não seja uma mesa de trabalho, quadros e uma porta fechada. Impessoal como um telefone corporativo e uma garrafa térmica. Era só um sonho. Mas depois de tantos sonhos que deixei de lado, guardados em uma gaveta qualquer, tenho medo de que finalmente, eu tenha me tornado aquela cadeira.

Henrique Arana

Tem 27 anos, de São Paulo, mas pode chamá-lo de Rico.
Estudou publicidade e jornalismo, hoje trabalha em agência de propaganda em Curitiba.
Seu sonho é parar de escrever sobre produtos quaisquer e poder escrever de sentimentos, dele e de outros.

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