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Na verdade, eu ia em uma festa, ali no centro mesmo, mas a amiga que me acompanhava achou que a galera era too alternative. A bexiga apertou e sugeri que fossemos ao CCBB, o mijo era certo e não teríamos que pagar nada.

Mas a passadinha no CCBB sempre se estende. Com os líquidos devidamente escoados e o sistema fisiológico aliviado, decidimos aproveitar a exposição do tal Erwin Wurm. Passadinha básica no balcão, “dois ingressos, por favor”, cartilha com informações essenciais e começamos a saga.

Uma das coisas que mais gosto ali é o espaço. As exposições começam pelo quarto andar e terminam no subsolo. Então fomos logo nos enfiando no elevador. Na primeira sala, uma série de objetos um tanto suspeitos: salsichas, pepinos e esculturas roliças. “Debochado esse Erwin”, pensei. Na hora, deu pra sacar que era um cara bem divertido.

Descendo para a segunda sala, o cenário já era diferente. Uma privada achatada. Uma cadeira de madeira, presa em um móvel retorcido. Um relógio atropelado pelas rodas de um caminhão. Uma estante se dissolvendo, como se fosse areia. Tudo parecia causar ora desconforto, ora um tipo estranho de prazer – o mesmo que se sente ao espremer um cravo gordo no meio do nariz.

Fomos à sala seguinte e aí veio a parte que me surpreendeu. Passei direto por um latão que eu jurava que era de lixo, minha ansiedade foi logo tomando controle e, quando eu já estava abrindo a porta, a amiga me barrou. “Para aí. Tem que colocar um protetor de sapatos antes de entrar!” Descobri que a “lixeira” era, na verdade, uma caixa onde as pessoas pegavam os tais protetores. Com os pés envoltos no pano descartável, finalmente entramos.

Eis o que acontece: a proposta do artista é transformar o espectador em obra. Erwin propõe uma série de atividades que devem ser realizadas durante um minuto. Fácil, né? More or less. Vamos lá:

18 bolinhas de tênis. Meu corpo. Um objetivo. Deitar em cima de todas as bolas, sem tocar qualquer membro no chão. Mais um vez, Erwin causando desconforto. Outrora, visual. Agora, físico. Com uma ajudinha, consegui realizar a tarefa. Não se engane pelo sorriso. Eu tarra sofrendo.

Não se engane com o sorrisinho, eu tarra sofrendo
Não se engane com o sorrisinho, eu tarra sofrendo

O segundo exercício, um pouco mais simples, consistia em sentar sobre um tapete, manter a coluna ereta e ficar durante um minuto imaginando o que você quisesse – na verdade, eu não pensei em nada, aproveitei pra fazer uma meditaçãozinha. Sucesso.

16395808_1247633565317043_1797707766_nPassei por mais alguns exercícios – uns fáceis, outros nem tanto – quando cheguei nesse puff amarelo. A imagem mostrava uma pessoa, colocando o objeto na cabeça. Reproduzi com o sentimento de missão cumprida. Arrasei…

Chega a guia e me dá um banho de água fria.

“Moço, na verdade, é pra ficar de cabeça pra baixo, como se estivesse plantando bananeira, mas sem os braços”.

Como bom brasileiro, incansável, que nunca desiste, fui. A parte da bananeira, ok. Fiquei uns bons minutos tentando tirar as mãos. Com a cabeça mergulhada no puff, escutava uma sequência de vozes desconhecidas. “Caraca, será que ele tá bem?” – “Véi, o menino tá tremendo” – “Depois eu quero, mãe”. Diziam as almas do mundo lá fora.

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Quando levantei, o rosto vermelho como um pimentão, me deparei com uma plateia que ria da falta de oxigenação visível na minha respiração descompassada. Missão cumprida. Sucesso.

Saí da sala feliz e já me deparei com um filminho de um homem se vestindo. Aproximadamente 15 minutos de gravação, na qual o senhor vai sobrepondo uma série de calças e camisas no próprio corpo. Erwin leva um guarda roupa e propõe que os visitantes se vistam de forma divertida e a exposição termina com um look que transita entre um gentleman inglês, um hipster moderninho e um soldado na Batalha de Jericó.

Resumão do rolê: Erwin Wurm é irreverente e um verdadeiro respiro em tempos conflitantes. O artista mostra porque precisamos da arte e consegue resgatar a criança interior que a rotina estressante bloqueia. A exposição “O Corpo é a Casa” segue em cartaz até abril e é uma opção ótima para pessoas de qualquer faixa etária.

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
Igor Amâncio

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