Escrever ou não escrever, eis a questão – We Love

Escrever ou não escrever, eis a questão

Adler: A Lu veio para a reunião de pauta com uma dúvida – quase uma dor – sobre como deveria escrever pro We Love. 40 minutos depois de video call e não entramos no consenso; afinal, escrever é tão íntimo que, para mim, pode expressar uma tarde ensolarada de domingo no parque e, para você, pode significar um fim de noite tristonho comendo uma pizza congelada. Teorias à parte, existe uma unanimidade: a gente se expressa 24h por dia. Falamos sem parar, rimos descontroladamente, olhamos atravessado, silenciamos, fingimos tossir, até mesmo dormimos fazendo caretas… Tudo o que fazemos – verdadeiro ou não – possui um significado. Então, Lu, não sei se te ajudo, mas tenta colocar um pouco disso num papel e reza pros deuses para alguém acreditar no que a gente está contando. O que vocês acham?

Lu: Escrever para mim era o jeito de me esconder e me revelar ao mesmo tempo. Era quando eu me libertava um pouco da vida real e mostrava a minha visão de mundo do único jeito que sabia. Escrevendo, tentando fazer com que as letras tivessem cor, toque, cheiro. Eu tinha guardanapos guardados, diários, cadernos e um blog. Era íntimo, pessoal e cafona. Mas sei lá, era meu. Com essa história de que todo mundo pode ler e escrever o que quiser e ter uma opinião sobre isso, achei mais difícil me abrir pela escrita. Vai ver é por isso que faço terapia e parei de escrever.

Re: Escrever é fácil, mostrar o que se escreve é que é um ato de coragem, só que no mundo dos desaniversários, onde tudo está tão ao contrário, escrever tem virado muitas vezes covardia. Eu amo a escrita da alma e tenho horror da escrita invejosa e superficial, sem responsabilidade. Eu amo a escrita do legado, eu tenho horror da escrita que não pensa; essa dos covardes da vida real. Escrever de verdade é, para mim, acima de tudo escrever com a alma para ajudar a mim mesma a entender o mundo. Escrever pra mim deve ser sério mas leve, assim como falar, assim como viver. Escrever tem vida, e como tudo que tem vida é apaixonante e sedutor. E como tudo que seduz tem seus truques, suas armadilhas. E como tudo que te seduz, te cega. Mas como toda paixão te ensina, te faz sentir vivo. Como toda paixão deixa marcas, em nós, no mundo e nos outros. E você Fefa, tá apaixonada também?

Fefa: Eu sou uma apaixonada. Por tudo. E isso inclui escrever. Mas eu amo mesmo ler. E vem daí a minha relação com a escrita. Para quem fala pelos cotovelos como eu, escrever é uma forma de refletir antes de vomitar minhas ideias no colo dos outros. Sou obrigada a parar, a reler e repensar. Olho para as palavras desenhadas à minha frente, gosto de algumas, detesto outras, sofro com todas elas. Me dói editar. Me dói mudar as coisas de lugar. Mais do que qualquer coisa, me dói saber que fui eu quem escreveu e me ver no espelho da “página em branco”. Quando eu leio, posso amar. Cada personagem, cada história. Posso amar a genialidade de ter um narrador morto (na história), posso amar o vocabulário rico, a narrativa complicada e até os neologismos. E, como todo mundo, eu tento me amar. É por isso que escrevo. Com paixão.

Bela: Escrever é… escrever errado. É sofrer um ataque, de verborragia. É escrever, escrever, apagar. Escrever outra vez. Escrever até a palavra parecer esquisita quando se escreve. É olhar pra dentro de você e tomar um susto quando descobre tudo o que guarda lá dentro. Escrever é arrumar o armário mental, jogar algumas coisas fora e olhar com carinho para as outras. É descobrir um outro você em você mesmo. É o desespero e calmaria que você encontra quando se olha no espelho. Escrever é se encarar, se modelar até descobrir qual é a parte de você que você vai mostrar pro outro, com palavras.

Felipe: Oito da noite. Quinta. Abro um vinho. Vou escutar uma musiquinha. Relaxei… Vou escrever. Escrevo muito quando bebo. Genial isto. Vou pôr no papel. Sempre acho genial. Incompreendido, mas genial. Puta poeta. A diferença do Drummond é apenas tempo de cancha. Já já, chego lá. Se mostrasse para um editor agora, certamente, seria publicado amanhã. Que profundidade nos significados. Que sagacidade penetrante no escolher das palavras… Mais um gole. Sempre cai bem… Abre a cabeça… Uau.

Oito da próxima noite. Sexta. Abro um vinho. Vou escutar uma musiquinha. Relaxei… Vou escrever. Afinal, escrevo muito (bem) quando bebo. Pera lá. Escrevi ontem! O que foi mesmo? Nossa… Que vergonha. Não dá nem pra terminar o texto. Se minha mãe ler, vai achar que quero me jogar da janela. Não sou alcoólatra também. Outro dia, li que beber 3 vezes por semana já é alcoolismo… Será? Acho que não… Médico não sabe nada. Bom, enfim: Texto horrível. Vou deletar. Quanta porcaria… Melhor escrever sóbrio da próxima vez.

Coletivo WeLove

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O Coletivo WeLove foi fundado para ser um espaço livre para a exposição de ideias e troca de inspiração entre pessoas interessantes e interessadas. Acreditamos que falta conversa boa, ouvir além de falar e assinar embaixo quando escrevemos – ou dizemos – algo.
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