Estou gay, e agora? – We Love

Estou gay, e agora?

Querido juiz,

Escrevo do meu leito, entre um espirro e outro; fui acometido por uma gripe. Ontem passei quatro horas sentado na recepção do posto de saúde que fica aqui na rua e o diagnóstico foi certeiro: é gripe, não temos o remédio no momento, mas vá para casa, repouse e tome muito líquido.

Qual foi minha surpresa ao acordar na manhã do último dia 18/9 e saber também que estou homossexual. Confesso: fiquei surpreso. Estava com a temperatura corporal um pouco elevada, mas até então acreditava piamente que era em decorrência da minha frágil imunidade. Não; Estava homossexual. Relacionava-me com homens, os beijava, os acariciava, os amava. Amava mesmo, um amor de homem pra homem, homossexual.

– Pode tratar, é caso clínico!

Comecei a pensar sobre essa sua condição, senhor juiz, e acho que a cada 100 homossexuais que sentarem em um divã para serem”reorientados”, 100 voltarão para suas casas absurdamente gays. E as análises microscópicas, patológicas e “incentivadoras do progresso científico do país” não irão mudar essa realidade porque estamos bem como estamos. Eu, só uma gripezinha.

Espirrei novamente; será homossexualidade? Não sei se o senhor tem conhecimento, mas lá nos anos 90 do século passado a Organização Mundial da Saúde nos tirou da condição de “doentes”. Mesmo que atestado tardiamente – já que nunca estivemos em condições tais – acredito que eles são mais gabaritados para dizer o que é considerado doença ou não (ou isso ou as faculdades de Direito começaram a ensinar o que seria função da medicina).

Se ensinam, acho que a posição que o senhor ocupa lhe dá o direito de prescrever doses medicamentosas para, por exemplo, curar coisas como o preconceito, a violência de gênero e muitas outras enfermidades que adoecem nossa sociedade diariamente. Será que há remédio certeiro, com bula e tudo?

Eu, no seu lugar, prescreveria informação e educação. Muita educação. Não essa genérica, mas uma efetiva, que derrube por terra a ignorância, o preconceito e decisões que projetam um retrocesso – uma boa frase de efeito, utilize bem no rótulo: se vamos caminhar, que sejam passos progressistas.

Quero acreditar que o senhor é bem informado. Acompanha notícias e lê ou assiste jornais diariamente. De qualquer modo, anexarei abaixo algumas manchetes que nós, enquanto comunidade LGBT, protagonizamos – estou sendo bastante generoso com o senhor, porque às vezes só viramos uma notinha de rodapé que passa batido por “olhos analíticos e diagnosticadores de doenças”.

“Brasil lidera ranking de MORTES POR LGBTFOBIA, afirma pesquisador”

“Número de homicídios de PESSOAS LGBT pode ser recorde em 2016”

“HOMOFOBIA MATA uma pessoa a cada 25 horas”

“BA ocupa 2º lugar em crimes contra LGBTs, aponta relatório do Grupo Gay”

Espero sinceramente que essas manchetes sejam elucidativas sobre a verdadeira doença social que assalta muita gente por aí. Por aqui, continuamos absolutamente saudáveis, amando e nos relacionando como se não houvesse amanhã. Fora um ou outro resfriado – e para além da violência diária que sofremos por ser quem somos – seguimos bem. Lutando batalhas com o peito aberto e de mãos dadas.

Não sou médico, mas sugiro que seus olhos clínicos se voltem para patologias sociais verdadeiras e autênticas. Porque nós não ESTAMOS homossexuais. Nós SOMOS homossexuais e continuaremos resistindo – como resistiram por nós no passado e como resistirão no futuro.

No mais, despeço-me com um abraço colorido.

Att, um gay que está apenas – e muito –gripado.

zadie smith (2)

Ronaldo Gomes

Ronaldo Gomes

Estudante de jornalismo que teoriza sobre qualquer besteira que encontra pela frente. Adora dançar – não na frente das pessoas – e escreve em um ritmo sobre-humano, ou gostaria. Já cantou em um coral, escreveu a própria biografia quando tinha menos de 10 anos e hoje vive contando histórias sobre a inimaginável capacidade humana de ter sentimentos.
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Comments

  1. Perfeito, emocional e verdadeiro. Amei cada palavra. Vai cuidando aí da sua gripe com a certeza que seu tecto pode curar outros males. Bj meu poeta!

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