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Eu e ela

Eu e ela | Pexels

Já me pediram algumas vezes pra que eu escrevesse a nossa história, mas eu sempre reluto. Imagino certos sentimentos feito joia de família, que a gente guarda trancada em algum lugar secreto, pra não chamar atenção pelo seu brilho, pelo seu valor. O mundo virtual é meio terra de ninguém, mas, às vésperas de completar dois anos de casamento (dia 8 de novembro), eu decidi que vou tentar resumir o que somos.

(silêncio) tá difícil a beça! Não, não tá não. Vem cá. (..) Eu e ela surgimos ‘ao acaso’, embora aquele olhar (quase verde) estivesse guardado aqui há mais de dez anos. Eu e ela nos esbarramos na dor e nos fizemos merthiolate e sopramos delicadamente cada ferida aberta.

Eu e ela nos viramos do avesso à distância. Eu e ela silenciamos o mundo por algumas horas quando pudemos, enfim, nos encostar. Eu e ela fomos apontadas pela nossa urgência e transformamos cada dedo em barra de KitKat, doce e gostoso de engolir. Eu e ela fomos ousadia, precipitação, na verdade, chuva de verão, das brabas, que molham cada milímetro do corpo, em todos os sentidos.

Eu e ela colocaríamos os inventores do LEGO no chinelo. Eu e ela desafiamos a lei da física, que diz que após o choque vem o afastamento, em velocidade relativa. Não houve, em tempo algum. Eu e ela costuramos qualquer impossibilidade e fizemos uma cortina, onde nos escondemos do resto do mundo. Eu e ela somos ar, terra e fogo, a água é o elemento que usamos pra regar nosso jardim.

Eu e ela casamos em sete meses, com a certeza de pra lá de sete anos. Eu e ela seguramos firme a mão da outra e embarcamos em uma viagem fantástica, rumo ao desconhecido para ambas. Eu e ela somos todo um universo, infinito, mas que só comporta um garotinho e uma cachorrinha que mais lembra uma cabrita. Isso por enquanto, porque eu e ela somos semente.

Eu e ela somos sentido, em todos eles, aliás. Eu e ela somos soma, divisão, uma equação matemática sem resto, mas, também, sem fim. Eu e ela somos cheiro, gosto, sons que não cabem em prateleiras de perfumaria, brigadeiros gourmetizados ou em qualquer playlist. Eu e ela transbordamos.

Eu e ela somos uma conexão intergaláctica, que se entende no silêncio, se lê no escuro, com ou sem as mãos. Eu e ela somos o avesso dos ponteiros, bicicleta sem marcha em ladeira íngreme, barriga habitando o Alasca – vinteequatrohoraspordia. Eu e ela somos um todo em partes, partes de um todo, somos pétalas de dente de leão que voam grudadas em um céu colorido, feito o pôr de sol da Restinga de Marambaia.

Eu e ela somos uma tarde num lago em Madrid, com uma garrafa de vinho. Eu e ela somos o quarto de cama bagunçada – e bem usada – de um bairro do subúrbio de Paris. Eu e ela somos um aterrissar gelado em Lisboa, um passeio de teleférico, um porre em Barcelona. Eu e ela somos também os lugares que ainda não fomos, e os que já fomos somos nós. Eu e ela somos um pousar de avião num ilha pequena, perdida no Atlântico Norte, somos um prato de sopa com pão, um par de meia trocados entre quatro pés.

Eu e ela somos uma mistura de macarronada com pastel de Belém, uma açorda temperada com pesto. Eu e ela somos a Praia do Leblon, as palmeiras do Palácio do Catete, as vistas das tantas janelas, os infinitos lençóis, as noites em claro e os sonos instantâneos. Eu e ela somos a Rua Bambina, as horas gastas nos botecos da esquina, os sexyshops europeus (ou nacionais).

Nós somos os filmes que ela não viu por ter dormido, somos as cervejas que não tomei para não engordar. Eu e ela somos a neosaldina antes de dormir, o primeiro gole de água nos dias de ressaca, o chocolate na TPM.

Eu sou o lábio de baixo amassado e bom de morder, os cabelos fartos e imensos, os cílios que piscam feito asas de libélula de tão grandes, os olhos com cor ainda não descoberta pela Pantone – mas, sim, são verdes! – as sardas dos ombros, as tatuagens de mau gosto, as mãos mais lindas do universo, o umbigo ao contrário, o cravo desenhado na perna, a micro unha do dedinho do pé.

Ela é um par de olhos castanhos, a tal boca que ela insiste em comentar, as gaivotas pousadas no ombro, a rosa dos ventos viking, pintinhas no nariz, a queimadura que, não, não é de moto, é abajur! Nós somos laço que envolve presente, passado e futuro.

Eu? Eu sem ela não sou. E nunca mais serei. As bodas são de algodão (doce), mas os tais laços, embora caiam delicados sobre nossos ombros, feitos os biquínis difíceis de desamarrar, são feitos de um elemento ainda não descoberto na tabela periódica, que, se eu pudesse escolher uma sigla seria: MÁ.

Roberta Profice é colunista do We Love e escreve aqui às sextas. Leia outros textos dela aqui.

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Jornalista, carioca, mãe do Du, dona da Martha, cervejeira, que divide seu coração entre a Má, a praia, a escrita e a cozinha. Nada necessariamente nessa ordem. Escreve todas as sextas.
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