Eu já fui gay • We Love

Eu já fui gay

eu já fui gay

Não costumo me explicar logo no primeiro parágrafo. Procuro deixar o suspense segurar o leitor até o final. Porém, com receio de que eu soe mal entendida (não houve nenhuma cura gay neste processo, porque isso não existe), vou logo me explicando: por algum tempo, fui “considerada” homossexual e sofri na pele as experiências oriundas do preconceito que toma conta das cabeças retrógradas de quem acredita numa superioridade hetero.

É disso que esse texto se trata e é essa a reflexão que quero provocar em todos: a de que, se colocando no lugar dos outros, conseguimos enxergar uma realidade muito maior que a nossa.

Eu tinha por volta dos 13 anos. Pela primeira vez na minha vida, eu consegui amigas mulheres. Não porque eu preferia homens, mas sim porque passei minha infância praticamente inteira com coleguinhas meninos. A minha falta de identificação com as meninas fazia com que eu me afastasse naturalmente delas e gravitasse automaticamente para os meninos. O desprendimento, as brincadeiras, as piadas, as indiretas. Tudo era mais calmo. Mais fácil.

Principalmente naquela época em que um turbilhão de hormônios tomava conta de mim e tudo parecia tão confuso e pesado – ainda mais quando sangue começa a escorrer entre suas pernas e você começa a ter vontade de chorar sem querer, além de uma irritação inexplicável. Tenta absorver isso com 11 anos de idade. Não é uma corrida no parque.

Então os homens acabaram sendo a melhor opção no que se tratava de amizade. Mais fácil mesmo.

Voltando aos 13, encontrei meninas, já aqui em Aracaju, com as quais eu me identificava. Foi muito massa! Ouviam as mesmas coisas que eu, assistiam as mesmas coisas que eu e falavam a mesma língua que eu.

Essa amizade se solidificou aos 14 quando, finalmente, migrei da minha turma (“E”) para a turma delas (saudosa “C”). Eu não conseguia conter a felicidade… E nem o riso. Eu ri muito nessa época. Essas meninas me faziam rir do primeiro ao último horário de aula. Ri da barriga doer. Era muito gostoso.

Com elas vieram os primeiros passeios entre meninas: shows de rock e festas estranhas com gente esquisita. Os primeiros porres e os primeiros meninos (e meninas, claro). Tudo corria muito bem até um derradeiro dia no banheiro da escola.

Não tem muito o que explicar. Estávamos tirando foto no espelhão do banheiro para postar no fotolog (maior sucesso na época da Internet banda larga recém-nascida). Rimos, tiramos foto, rimos um pouco mais. Tranquilo.

Quando saímos do banheiro, inesperadamente, três garotos do terceiro ano científico (ensino médio) nos esperavam na porta.

Susto.

Daí os três começaram a gargalhar. Achamos estranho, mas tudo bem. Continuamos nosso caminho pelas escadas e eis que um deles grita: “Bolacheira!”.

Olhamos para trás. Algumas com um olhar espantado e outras com um olhar confuso. Eu fazia parte do segundo grupo porque eu não tinha entendido o que era ‘bolacheira’. Mas a confusão durou muito pouco quando, em milésimos de segundo, a dedução caiu como pedra na minha consciência.

‘Lésbica’.

Admito que isso não me atingiu no início. Eu gostava de ser a misfit. A “fora do padrão”. Era interessante e me diferenciava da multidão igualzinha do mundo.

Mas foi ficando pior. Os gritos deixaram de ser só dos meninos para ecoarem nas vozes de toda a escola. Com o tempo, os gritos deixaram os corredores do colégio e passaram às ruas. Como eu voltava com meu pai, de carro, para casa eu não tive noção por um longo tempo, do que minhas amigas passavam nos pontos de ônibus e na caminhada para casa.

Um sentimento de dúvida e dor, inesperados, começaram a se instalar no meu peito. A mistura de “será que eu sou? Mas eu não sou…” com “Mas, gente, e se eu fosse, eu merecia ser perseguida e exposta assim? Qual é o problema?!”.

Eu lembro dos olhos nervosos e inseguros das meninas quando largavam da escola. Talvez nem elas lembrem, mas eu me recordo muito bem. Eu lembro da zombaria, dos dedos apontados e das risadas debochadas. Eu lembro que pensávamos duas vezes antes de nos abraçarmos ou sentarmos no colo umas das outras. O que antes era demonstração de carinho, agora era motivo de perseguição.

Eu lembro que algumas colegas não podiam nem ir ao banheiro mais sem voltarem iradas com gritos que as perseguiam no corredor. Eu lembro das meninas novatas que não queriam (e era incentivadas a não querer) ficar na nossa turma porque, se ficassem, seriam automaticamente consideradas ‘potchas da C’ – essa era a expressão que ficou perpetuada.

Essa fama ganhou outras ruas, outros bairros e chegou a outras escolas. Ficamos conhecidas com essa nomenclatura, pelo menos, nas escolas particulares da cidade.

Não nos restou nada, com o passar do tempo, a não ser abraçar aquilo com unhas e dentes.

Decidimos levar à cabo aquelas expressões “tá no inferno, abraça o capeta” ou o famoso ditado “apelido que não irrita, não fica”.

Voltamos a nos abraçar, só que dessa vez mais forte e mais demorado ainda. Não só sentávamos no colo, agora apertávamos o peito e a bunda das amigas “tirando onda”. Dávamos selinho sem medo e todas as características físicas e de vestimenta que nos separavam das “outras” foram intensificadas. As calças ficaram mais folgadas, o cinto mais frouxo, os cabelos mais coloridos, os piercings se reproduziram e o riso? Ficou mais solto ainda.

Óbvio que isso deu um resultado positivo. Nossa confiança abalou os intimidadores e incentivou os outros “diferentes” da escola. Vimos meninos mais novos começarem a se vestir como queriam e, pasmem, numa escola católica, fomos defendidas até mesmo pelo Monsenhor que era diretor executivo.

Anos depois, ao passar pela frente da escola, vi umas dezenas de alunos coloridos, descolados e cheios de atitude. Aparentemente, pelo que ouvi falar, o colégio havia se tornado, oficialmente, o lugar dos “veados e lésbicas” de Aracaju. E, quer saber? Eu amei aquilo.

O contraste da igreja e a cruz gigantesca com os “meninos coloridos” na frente me fez sorrir dentro do carro a caminho do meu trabalho. Saber que nossa atitude de encarar as coisas de frente e abraçar uma opção sexual que não era nossa só para abrir caminhos pra tolerância e para o respeito me fez ter orgulho da minha adolescência.

(Aliás, algumas das minhas amigas se descobriram gays mesmo nessa época. Isso só me deixa mais feliz ainda por saber que nem esta fase de perseguição e bullying as afastou do que elas realmente foram e são: lindas e maravilhosas. Interessantíssimas como elas só. Mais do que qualquer amigx hétero que eu tenho. Fato).

E eu sei que o que a gente passou é só a ponta do iceberg. Tem gente que vive coisa muito pior. Já ouvi falar de pedras jogadas, espancamentos e agressões mais sinistras. Tenho consciência disso e peço licença apenas para falar sobre a minha experiência que, pode não ter sido a pior, mas teve um enorme significado para mim para que eu compreendesse de forma mais completa o que é ser vocês no dia a dia.

E esse texto é pra vocês, pré e adolescentes que estão nervosos, em dúvida de se assumir como são ou temerosos com o bullying que vêm sofrendo.

Saibam: tudo passa. Fiquem juntos dos seus amigos e façam o que quiserem fazer. Os maiores gênios são renegados e colocados de lado. As maiores personalidades são “diferentonas”. As pessoas mais legais que conheço foram e ainda são motivos de narizes torcidos e sobrancelhas arqueadas.

Você é o que tem de mais legal na sua escola, na sua família, no seu estágio, no seu bairro, na sua cidade. Acredite. Mas acredite mesmo. Eles só não enxergaram isso ainda.

E estamos juntos com vocês. Eu, como mulher branca, cisgênero e heterossexual, estou junto com vocês e quero lutar por vocês. Aliás, eu já fui gay também… E adorei a experiência.

Maluh Bastos

Maluh Bastos

Pernambucana, DJ em andamento, jornalista e aspirante em advocacia. De pouco a pouco, é alguém que acredita na liberdade de escolha e na igualdade social. Fã de harry potter e no âmbito da música aconselha sempre que siga seu coração e, nunca, NUNCA apenas o que todo mundo ouve.
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Comments

  1. Clélia Cardoso

    Muito pertinente este texto!! É exaustivo, pensar nas dificuldades encontradas em muitos, em ter que se impor, numa sociedade machista e desequilibrada!! É doído, ver o corromper de identidades só pq não são aceitos pelos valores impostos por uma sociedade LIXO! ! Sofri bullying sim…Por cursar na Universidade, um curso elitista, sendo pobre!! Esqueceram, que com muito estudo e mérito ali eu estava, sem ter um…unzinho sequer, me dando PARABÉNS. ..Por ter sido classificada em primeiro lugar no curso, e que mesmo pobre, andando de ônibus, usando o mesmo jaleco por muito tempo e tendo que trabalhar, pra me manter naquele espaço. Enfim…doído sim…Mas tb , muito orgulhosa pelos valores adquiridos e de cabeça erguida!! BULLYNG ( nem sei se escrevi certo),é uma palavra feia em meu dicionário, portanto, sei bem o que é isso . Como vc e de várias maneiras, com força hercúlea, somos hoje bons e verdadeiros valores de superação. Ahhh e sem esquecer tb ( como trata tb o texto), me identifico com a parte em que amizades masculinas, é mais fácil! !! Ohhh surpresa…NÃO. ..Muita cousa continua do mesmo jeito e não sei por quanto tempo vai durar…Mas com os masculinos…Nos sentimos, muitas vezes mais à vontade…Numa relação sem afetação e falsidades!! Dez pra seu texto…E mil pra vc!!

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