Eu não gosto de lembrar de você – We Love

Eu não gosto de lembrar de você

Eu não gosto de lembrar de você

Eu não gosto de lembrar de você. Não gosto nem de pensar em você. Não me leve a mal, isso não tem nada a ver com ódio ou rancor. É que, às vezes, só de ouvir seu nome me vem essa mistura de sentimentos, como se alguém pegasse meu cérebro e meu coração e batesse num liquidificador. Aquela geleia que sobra, sou eu quando penso em você. Ainda está parecendo uma coisa muito ruim, né?

O problema não é você, nem eu. São as lembranças de nós dois. É sair para levar o Eustáquio para passear e lembrar de você imitando aquele resmungão do desenho. É pedir um expresso e ouvir, como se você falasse dentro dos meus fones de ouvido, que expresso mesmo só existe o italiano. É arrumar meu cabelo na frente do espelho, e bagunçar sozinha os cachos da franja e repetir ‘tá linda’, como você fazia.

No começo, eu quase parei de tomar café por sua causa. O Eustáquio teve que se acostumar com o jornal e minhas franjas mudaram de lugar tantas vezes que, sinceramente, nem me lembro mais. Mas, com o tempo, a gente vai acostumando e as coisas do dia a dia foram deixando de ser nossas e voltando a ser minhas. Mas ainda assim…

Tem dias que são mais difíceis. Que alguma coisinha simples vai lá dentro e pega as lembranças pela mão e as coloca bem ali na minha frente, apresentando um seminário sobre como a vida nossa foi um dia.

Isso não é ruim. Na verdade, em cada memória vem um sentimento que eu nem sei dizer se é bem de alegria ou de tristeza. Que cresce dentro de mim, como se estivesse prestes a pular para fora da boca, mas ainda assim fica escondido lá atrás, preso num cantinho escuro.

Essa mistura me deixa maluca, porque tem uma parte de mim que queria fazer alguma coisa para esquecer tudo isso, ou para viver de novo. Tanto faz, desde que me fizesse deixar de ser apenas espectadora passiva desse desfile de recordações. Outra parte sabe, que não tem mais nada que possamos fazer. Que por mais que eu esteja sentido tudo isso agora, nada disso é do presente. É só o passado chegando de mansinho para dar um alô, tomar um café e depois seguir seu caminho no tempo.

É por isso que eu não gosto de lembrar de você. Porque lembrar de você não é ruim. Mas é lembrar que algo que já foi tão bom, acabou. E não quero dizer que não deveria ter acabado. Como todo Sol que se põe para dar espaço para a próxima Lua, a gente fez o nosso dia nascer e morrer feliz. É porque eu sei que essas lembranças ainda vão me acompanhar por muito tempo. E de vez em quando, eu vou sim deixar de lembrar, como eu passei direto pelo dia do seu aniversário esse ano. Mas terão horas em que eu vou me lembrar, vou derreter de novo dentro do liquidificador e vou até me recompor. Eu não gosto de lembrar de você, porque eu sei que nunca vou te esquecer. E aqui eu estou, lembrando de você mais uma vez.

Henrique Arana

Tem 27 anos, de São Paulo, mas pode chamá-lo de Rico.
Estudou publicidade e jornalismo, hoje trabalha em agência de propaganda em Curitiba.
Seu sonho é parar de escrever sobre produtos quaisquer e poder escrever de sentimentos, dele e de outros.

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