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Eu sou como todas as outras

Eu sou como todas as outras

Foi de manhã na sua casa que percebi que eu só tava lá porque era igual às outras. Exatamente igual. Seu padrão incluía garotas com uma grande tendência à rebeldia, que não se importavam com a opinião alheia, mas sucumbiam às suas. Eu tava escovando os dentes na pia de porcelana bege escuro quando percebi que as chances dos pés que haviam pisado naqueles mesmos tacos, antes de mim, também estarem calçando um par de tênis pretos, como eu, eram imensas.

Aposto que elas também tomavam banho de novo pela manhã.

Passando o café, percebi que não faria sentido você ter aquele estoque todo de café só pra você, já que o cara que mora com você só toma cachaça. Não era pra você, era pra gente. Você colocou na lista de mercado que precisava comprar café pra eu tomar de manhã e eu, que sou como todas as outras, enquanto preparava o ritual matinal, percebi que o café era outra parte do seu padrão.

Você buscou mãos parecidas com as de alguém e encontrou as minhas. Correu atrás de alguém que entendesse quando você falasse de Chico e não torcesse o nariz pro MC Lan depois. E encontrou todas as outras e agora me encontrou. Você procurou alguém que estivesse disposto a não te beijar em público, como alguém já tinha estado antes. Procurou quem topasse caipirinha de saquê ou de Velho Barreiro. Achou alguém e achou a mim.

Eu tava tomando o café na varanda com o cigarro recém-aceso quando percebi que você não fuma regularmente, mas aquele cinzeiro sempre esteve ali, porque não era seu: era nosso. A cerveja na geladeira compunha o cenário ideal que você criou do nosso corpo escondido por uma camiseta sua, com uma lata na mão e um cigarro na outra. Você viu essa cena e procurou personagens que pudessem reproduzi-la fielmente depois.

Encontrou todas as outras, encontrou a mim.

Você procurou um monte de coisas que perdeu. Encontrou metades. Porque meu café não é adoçado com agave, eu fumo cigarro de filtro vermelho, não gosto tanto assim de Chico Buarque e não suporto a batida do funk – só danço quando estou bêbada pra te provocar. Você queria alguém que usasse suas roupas e eu tenho as minhas. Tiro meu creme dental da mochila pra escovar os dentes e não precisar usar o seu.

Eu não cedo às suas pressões, não ligo pra suas opiniões. Eu caibo em alguns dos seus padrões, mas sou grande demais pra tantos outros. Por hoje, eu fico. Fico, porque quero, porque é legal, porque é divertido, porque eu quero ver até onde você vai. Mas, quando eu for embora, porque eu vou, vou te contar uma verdade que algum amigo seu devia ter te dito há muito tempo atrás: eu não a conheci e nem sei quem ela foi pra você, mas você pode procurá-la onde quiser. Em quem quiser. Procure em mim, se fizer sentido pra você. Procure, descabele-se, compre café, troque o cinzeiro. Você não vai encontrar. E vai repetir todos os padrões. E vai se despedaçar, porque eles não são suficientes.

Não vai adiantar, porque a pessoa que realmente vai te trazer de volta o gosto da vida deve odiar cerveja, não fumar, escutar música em francês, italiano e inglês, seguir todas as regras e estar nem aí pra você. Se você bobear, ela vai embora também. E, quando for embora, você não vai encontrar outra igual. E vai se despedaçar de novo. E procurar pessoas parecidas, procurando encontrar uma forma de preencher o vazio. Com músicas francesas, dessa vez. Ou MC Lan novamente.

Você não vai achar. Vai doer. Procurar dói mais que aceitar o não. Dói muito. E você não vai ter sucesso na sua busca. Mas eu não vou te contar nada disso. Hoje não. Só quando eu for embora. Ou quando você descobrir que eu não caibo nem nas suas camisetas, nem nas suas projeções.

E boa sorte pra encontrar alguém com um café tão bom quanto o meu. Um que você consiga tomar puro, por favor.

Gi Marques

Gi Marques

Sou a poesia da contradição de tênis e batom vermelho escrevendo histórias que vivi e inventei (qual é qual já não dá pra te contar).
Gi Marques

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