Eu tive sorte • We Love

Eu tive sorte

Eu tive sorte | Pixabay

Eu tive sorte quando engravidei aos 16 anos e meus pais ficaram ao meu lado. Tive sorte aos 15 quando, depois de ter o coração partido, tomei meu primeiro porre e voltei para casa em segurança. Tive sorte no último ano, quando saía do trabalho todos os dias às 21:30 e nada aconteceu.

fraseTive sorte nas vezes em que viajei sozinha e de encontrar companheiras pelo caminho. Tive sorte de estar perto de casa quando, voltando do trabalho na noite de um domingo chuvoso, um taxista me perguntou se eu curtia ir a clubes de swing.
Tive sorte quando, depois de uma entrevista, um político segurou meu braço e comentou sobre minha tatuagem no pulso. Tive sorte quando o dono da empresa em que eu trabalhava  disse que meu pai era “muito sortudo” em me ter como “filha”, fazendo aspas com os dedos e quando meu então chefe disse que “eu era novinha, mas era mãe e merecia respeito” – porque se não tivesse um filho, tudo bem continuar com as brincadeiras.

Tive sorte quando fui assaltada por 5 caras na porta de casa e eles só levaram o carro da minha amiga, nossos cartões e documentos.

Tive sorte quando, de novo, estava triste com um pé na bunda, tomei um porre gigante em uma balada e fui parar na enfermaria – mas meus amigos me levaram para casa em segurança. Tive sorte quando, depois de levar um fora, um cara enfiou o dedo na minha cara dizendo que eu era feia. Tive sorte quando, em uma das primeiras vezes que dirigi sozinha, começou a chover granizo, entrei na contramão e dei de cara com um carro da polícia – que pediu meu MSN e, vendo meu endereço no documento do carro, brincou que iria me visitar.

Tive sorte por nascer onde e como nasci. Em ter encontrado as oportunidades que apareceram no meu caminho – mesmo sem trilhar nada direito. Tive sorte em escapar de situações que imaginei que jamais sairia ilesa. Ou, pelo menos, aparento assim.

Ana Sasso

Ana Sasso

Editora do We Love. Pensa alto, fala sozinha e rabisca em papéis pelo caminho. Quando não está escrevendo, está pensando no que vai escrever. É jornalista, mas vive entre contar e inventar histórias aqui.
Ana Sasso

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