Eu vim Straight Outta Compton – We Love

Eu vim Straight Outta Compton

Foi uma das primeiras tracks da k7.

A voz do cantor se repetia, como num disco riscado. Mas aquelas voltas faziam sentido. O timbre era fino, quase robótico. Uma leve melodia surgia logo atrás, antes que uma batida 4×4 desse seu chute inicial para começar a jogo.

Foi a primeira vez que eu ouvi um scratch na vida.

Confesso que não foi com o artista mais simbólico do segmento mais conhecido por esta técnica. Aliás, a banda nem era de rap ou hip hop. Era uma mistura. O ano era 1999 e uma nova era do rock nascia com o nu-metal.

Eu só tinha oito anos, mas foi ali, naquele momento, que eu comecei a ouvir música por conta própria. Usando a influência dos outros, mas conduzindo a partir dali meu próprio gosto. Foi louco e muito legal. Muitas cassetes gravadas, muitos CDs emprestados, muita estação de rádio sintonizada. Mas, no fim, não tem como negar: o hip hop, pelo caminho certo ou pelo errado, foi um dos que entrou na minha vida primeiro.

Ao longo do tempo, meus exemplos musicais do estilo continuaram sendo do mainstream. Só vim conhecer o que era rap de verdade de uns cinco anos para cá. Fui voltando no tempo e aprendendo devagarzinho – e até hoje aprendo, confesso, tanto no âmbito gringo como no nacional.

Porém, como faz pelo menos uns bons 15 anos ou mais que acompanho o segmento, pude observar que aquela velha ‘desviada’ do que vinha sido feito e a distorção dos propósitos caminhos com os quais o hip hop nasceu foi inevitável. Em terra de selfie, ostentação e featurings, ele não é mais o mesmo. Quero dizer, aliás, volta a fita…

Se existe uma coisa que influenciou e ainda influencia todo o universo pop ocidental é a cultura negra, e especialmente, afro-americana. Dá uma volta. Tudo que você vê de hype hoje veio do gueto. Não adianta fugir. Os brancos sempre tentaram ser legais, descolados e interessantes, mas nunca conseguiram até tentarem imitar o que os negros vinham fazendo na música, na moda e em qualquer lugar. Lembro-me como so fosse ontem, eu e minhas amigas, numa escola no nordeste do Brasil, cantando e entendendo as letras de ‘If you’re scared, motherfucker, go to church!’ e vibrando com isso. Guetto is everywhere. Da soul music ao rock’n’roll, eles que comandaram o que fazemos até hoje e ainda não ganham reconhecimento por isso – daí as mil polêmicas ‘vêemísticas’ da vida.

E daí, no meio dessa confusão onde os brancos tentam executar as mesmas coisas e até mesmo da música original se perdendo num universo onda a indústria cultural não poupa ninguém – nem mesmo o gueto – vem uma lufada de história da raiz. De onde uma grande vertente começou. Para lembrar do começo, porque quando os caminhos se confundem é necessário voltar a ele (já diria Leandro, o Emicida).

Straight Outta Compton conta a história do início do que viria ser o gangsta rap norte-americano. A trama gira em torno de Andre (aka Dr. Dre), Eric (aka Eazy-E), O’Shea (aka Ice Cube) e toda a galera que foi envolvida no nascimento da N.W.A (Niggas With Attitude), grupo que influenciou toda essa onda de rappers que veio depois, cantando letras sobre o dia-a-dia no gueto, a discriminação sofrida por ser negro e a perseguição da polícia oriunda de tal discriminação. Não vou fazer uma crítica sobre o filme, porque estou longe de ser uma analista de obras cinematográficas. Só precisei parar para escrever algo assim que terminou o longa que me arrancou lágrimas, sorrisos e coreografias no sofá. Que filme fod*.

Não é só fod* por conta dos aspectos técnicos que, para mim, leiga no assunto, foram bem executados (fotografia ficou linda, roteiro muito bom, trilha sonora nem se fala!). Mas é bom porque me lembrou que o caminho da música é difícil em todos os aspectos e que a cultura que vem do subúrbio é a que costuma trazer mais verdade para a mesa da família tradicional brasileira, norte-americana, japonesa ou seja lá o que for. Os caras impulsionaram um movimento e enfiaram goela a baixo dos que ainda estavam cegos o terror que era viver sob a onda de pavor e ódio dos que supostamente foram colocados nas ruas para nos proteger. O tema é atemporal e universal. Vê o que estamos passando hoje? Esses caras já vêm nos alertando sobre isso há anos; eles escrevem sobre isso, eles vivenciaram, eles rimam… E a gente ainda ouve os jornais e dá mais atenção ao jornalista pomposo.

Aliás, tem um trecho interessante que eu tenho que destacar (mini-spoiler alert): Ice Cube, em uma de suas entrevistas, peita um jornalista tendencioso que foi espirrar perguntas estúpidas dentro da própria casa do rapper e afirma “Eu também sou jornalista. Eu falo sobre a minha realidade e sobre o que eu vivo” – não foi palavra por palavra o que ele disse, mas foi essa a ideia. Que genial, cara! Como jornalista, saúdo os verdadeiros representantes do quarto poder: os rappers. Valeu pelo toque, Cube.

Straight Outta Compton é um filme fantástico justamente por isso. Conta uma história real, do jeito que merece ser contada, enfatizando o que deve ser contado. Eu poderia ter assistido a duas horas e pouca de bunda de mulher fazendo twerk e os caras em uma orgia sem fim. Podia, sim, até porque eles também viveram isso. Mas a opção que fizeram foi pela sinceridade e pela mensagem tão necessária depois da repetição do episódio de Rodney King com os diversos jovens negros que estão sofrendo genocídio nos Estados Unidos e no mundo neste momento: tudo continua a mesma coisa de anos atrás. Além disso, foi uma grande homenagem a Eazy-E que faleceu com AIDS em 1995 e que foi peça-chave no grupo por sua autenticidade, originalidade e letras fortes no universo caótico em que se situou.

Por fim, a mensagem que também não pode faltar é de que é sempre bom destacar que os talentos continuam aí e que nem sempre tudo é só apelação midiática quando se trata de hip hop. Dr. Dre continua produzindo talentos de peso e com mensagens fortes como Kendrick Lamar, além de sua contribuição pro mundo da música e da produção musical em geral. Ice Cube é um verdadeiro entertainment man. Atua, produz e compõe ainda com muita facilidade. Mas, mesmo com a agenda cheia, os caras arranjaram um tempo para se unir e dizer, através de Straight Outta Compton, o que a juventude do ctrl+c ctrl+v precisa recomeçar a fazer: falar o que quiserem falar, sem meias verdades. O povo é o grande representante de si mesmo e a música é um canal. É, cara… como já diria Les Criolex, “todo maloqueiro tem um saber empírico” e a gente ainda tem muito o que aprender.

 

Maluh Bastos

Pernambucana, DJ em andamento, jornalista e aspirante em advocacia. De pouco a pouco, é alguém que acredita na liberdade de escolha e na igualdade social. Fã de harry potter e no âmbito da música aconselha sempre que siga seu coração e, nunca, NUNCA apenas o que todo mundo ouve.
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