Sobre a minha experiência ao ter os olhos vendados e ser alimentada por pessoas cegas • We Love

Sobre a minha experiência ao ter os olhos vendados e ser alimentada por pessoas cegas

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Eu imaginava, mas não sabia ao certo o que nos esperava.

Não estar sozinha já era um alento. Afinal de contas, como não ficar apreensiva frente ao desconhecido? Todos desejamos dividir a adrenalina nos momentos de incerteza.

A expectativa era altíssima. Não pesquisamos antecedentes. Não ouvimos relatos. Não apelamos para a tecnologia. Escolhemos e lá fomos em busca sem saber exatamente de quê.

Antes de mais nada, nos foi solicitado que deixássemos tudo em armários. Parece simples, mas, em plena era digital, é difícil deixar o smartphone em um armário, tirar joias e deixar a bolsa de lado. Nos desgarramos do que era palpável sem saber que naquele momento nossas almas começariam a ser preenchidas.

Logo em seguida, foi dito com muita clareza que a confiança era indispensável para viver as próximas horas com toda a intensidade possível. Foi a lição número um.

Ninguém ali se conhecia, mas dividíamos a mesma apreensão. O pulsar dos corações era sentido no ar. Os sorrisos nervosos e curiosos eram comuns aos mais velhos, aos latinos, aos negros e até mesmo às crianças.

Éramos, a partir daquele momento, parte de um todo. E assim permaneceríamos até o fim. Lição número dois.

As sensações percorriam as pontas dos dedos. Literalmente. Tudo dava medo e ao mesmo tempo surpreendia. Eram muitos, mas muitos sorrisos – por mais que eu não os tenha visto, podia senti-los no tom de voz.

Eu queria ouvir o que todos falavam, mas seria impossível. Em alguns momentos, me reservei o direito de não ouvir ninguém para descobrir minhas próprias sensações. Fui guiada de forma impecável do início ao fim. Nunca imaginei tanto prazer, tantas descobertas e tamanhas sensações.

Descobri que minha boca funciona melhor se não uso os olhos. Senti que posso escutar muito mais do que o faço quando vejo. Percebi que nas pontas dos meus dedos moram respostas que antes só o paladar diria.

As amigas ao meu lado foram testemunhas nada oculares de momentos que me ensinaram como quero ver a vida.

Comer no escuro, sendo servida por cegos e sem enxergar um palmo à frente do nariz me mostrou como menosprezamos pequenos prazeres. Como tentamos adivinhar sabores através dos olhos, como pré-julgamos texturas antes mesmo de tocá-las.

Quero interagir com o mundo sem pré-julgar quem está ao meu lado. Quero conversar às cegas. Como é interessante ouvir a vida de quem está ao seu lado mas não tem cor, idade ou sexo. Quero confiar no mundo e na vida. Quero sentir sabores desconhecidos explorando todas as ferramentas que o mundo nos dá.

Quero descobrir o que não se pode ver.

Dianna Macedo

Dianna Macedo

31, carioca. Amante do açúcar e da escrita. Pedala, bebe muito mate, adora divagar sobre a vida.
Dianna Macedo

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