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Frustração Justificada

mad sad desesperate | pexels

Aos 17 anos, recebi meu primeiro diagnóstico psiquiátrico: transtorno bipolar. Ainda aos 17, em outra consulta, de presente de natal, ganhei mais um: depressão. Aos 18, numa ida urgente à ala psiquiátrica de um hospital, foram acrescentados ao meu histórico dois distúrbios alimentares: bulimia e anorexia – esta última classificada como “nervosa”. Aos 19 anos, quando mudei de cidade e fui buscar continuidade do tratamento, para minha surpresa, me deparei com outro transtorno, o borderline.

Durante quase dois anos, todos os dias, a primeira coisa que via ao acordar era uma caixa de antidepressivo. A recomendação era que eu tomasse um comprimido logo após o café da manhã. Depois do almoço, já numa caixinha de remédios que eu carregava para onde fosse, tirava outro antidepressivo para ir aguentando o resto do dia. À noite, religiosamente uma hora antes de dormir, ia ao encontro da intimidadora tarja preta: era hora do ansiolítico. Durante esse tempo, também tomei antipsicótico, hipnótico e outro ansiolítico desenvolvido para auxiliar no tratamento contra depressão, mas que passou a ser utilizado para inibir apetite. Eram muitos remédios, eram muitos transtornos.

Quando completei 20 anos, com uma mente absolutamente perturbada, decidi começar a pesquisar sobre todos os distúrbios que eu tinha, porque até aquele momento eu acreditava nos psiquiatras, profissionais da saúde com muitos anos de estudo. No fim das contas, os diagnósticos não eram precisos. Eram, na verdade, comportamentos advindos da adolescência e, principalmente, dos hormônios desvariados. Demorei para concluir, mas quando o fiz, parei com todos os remédios de vez. Até porque, por três anos eles não me trouxeram benefícios. Pode ter parecido irresponsabilidade minha, mas hoje sei que foi a melhor decisão que poderia ter tomado.

Confesso que até hoje mantenho um ansiolítico para emergências, mas é comum perder a validade.

*Abro um parênteses para deixar claro que não aconselho você que está em tratamento psiquiátrico/psicológico e toma algum remédio prescrito a abandoná-lo. Se houver vontade, leve a questão ao profissional que te acompanha.

De forma bastante sintética, esse é o meu histórico psiquiátrico e psicofármaco. É uma introdução para o que quero abordar.

Pouco tempo depois de ser diagnosticado com transtorno bipolar, lembro de ter visto algumas pessoas da minha faixa etária dizendo nas redes sociais da época que também o tinham. No entanto, havia uma diferença: era como se fosse legal, porque tudo podia ser justificado pelos episódios maníacos ou depressivos, qual fosse o da vez. Eu ficava me perguntando como podia ser legal ter uma doença, mas não prestei muita atenção e deixei passar.

Antes dos meus distúrbios alimentares, também vi uma onda de Ana e Mia. Inúmeras comunidades e fóruns dedicados as “amigas” Ana – que vem de Anorexia – e Mia – que, obviamente, vem de Bulimia. Eram incontáveis receitas, discursos encorajadores, depoimentos e tudo o mais. Nunca esqueci da dieta 2468…

Nos anos seguintes, comecei a perceber a mesma dinâmica com uma nova doença, a depressão. Só que essa tem sido mais duradoura, talvez até crescente, afinal, todo mundo “tem depressão” hoje em dia – quando não é um combo com síndrome do pânico.

Algo que me chama muita atenção é a faixa de idade das pessoas; normalmente da minha geração, indivíduos que talvez tenham passado por essas fases de outras doenças “cool”.

O que eu percebo hoje é que parece moda “ter depressão”. É fácil ver (principalmente na Internet) pessoas dizendo que têm a doença, que estão tentando lidar com a incapacidade que ela traz, mas também que se tornaram maduras depois que aprenderam a dar valor a um sorriso porque elas quase nunca esboçavam um involuntariamente. Infere-se algo importante: tristeza é algo normal.

Todo ser humano sente. Vou adiante: todo ser vivo deve sentir. Há uma diferença gritante entre estar deprimido, que é, a meu ver, um momento da vida resultado por algo que aconteceu ou não, por um vazio que eventualmente se instala, por uma crise de identidade, por um ente querido que foi embora, um relacionamento que acabou ou até por não encontrar sentido.

Ter a doença, a depressão crônica mesmo, é uma luta diária contra um monstro que você não enxerga, é criar forças para fazer as coisas mais simplórias, é não ter como cumprir as tarefas cotidianas, os compromissos corriqueiros. Depressão situacional desaparece com o tratamento certo; depressão clínica é uma condição muito mais séria e duradoura.

Assim como os outros transtornos com os quais fui diagnosticado, eu também nunca tive depressão. Já estive deprimido por diversas vezes, por outro lado. Ouvi de algumas pessoas que isso me tira a propriedade para falar do assunto, que por nunca ter entrado no duelo com ela munido de espada e escudo, não posso falar. Só que eu posso. Às vezes me acho até preconceituoso por pensar nessas pessoas que têm tempo para espalhar aos quatro ventos que têm depressão, como pessoas muito privilegiadas. Mas acho que são só os exemplos dos que me rodeiam. É mais ou menos como uma conhecida que foi passar uma temporada na Europa para tratar a “doença”. “É mais fácil ter depressão em Barcelona”, ela disse. Não, não é. Não é fácil em lugar algum. Mas quem pode, vai. E às vezes dizem que se cura, viu? Impressionante como uma cidade pode fazer milagres. Eu não tenho tempo para ter depressão, essa que anda assolando esses jovens, no caso; os que vomitam sua “doença” tomando uma cervejinha no barzinho badalado da cidade.

Quando confirmei, já adulto, ao longo das sessões de psicanálise, que todos aqueles diagnósticos eram irreais (para não dizer surreais), entendi que eu era simplesmente normal. Mais uma pessoa no mundo. E foi até um pouco chocante concluir isso. Tenho impressão que as pessoas precisam ser diferentes. Ou melhor, que elas precisam se sentir diferentes, especiais. E ao mesmo tempo precisam pertencer a um grupo cool, que tem como psicossomatização tomar cerveja com os amigos e escrever textão em rede social, os mártires wanderlust.

Eu entendi que sou apenas mais uma pessoa nesse mundão. Tenho minhas questões, minhas frustrações, meu vazio e tudo o mais, mas tento lidar com todos eles. Lido com os demônios que moram nos meus ombros, sem fazer deles amigos ou batizá-los de depressão. É essencial tentar se conhecer (os psicólogos estão aí para auxiliar) e não buscar muletas para justificar a frustração.

Lohan Montes

Lohan Montes

Jornalista de formação, descobriu que as letras estrangeiras lhe faziam mais sentido, mas nutre uma paixão irremediável pela psicologia. Diagnosticado com nictofilia aguda ainda na infância, vê beleza no lado escuro da vida, encontra paz nos gritos de Diamanda Galás e sonha em um dia escrever como Stephen King.
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