A gente não ama nem odeia o Carnaval • We Love

A gente não ama nem odeia o Carnaval

A gente não ama nem odeia o Carnaval | MaxPixel

A gente não ama e nem odeia o carnaval. Eu falo a gente, porque conheço um monte de gente que provavelmente compartilha do sentimento. Começa em janeiro, quando quem é da folia escolhe as fantasias, quem é do retiro planeja as orações e quem é da paz e tranquilidade paga um pacote de viagem. A gente não faz nenhuma dessas coisas. A gente até esquece que tem Carnaval, não fosse o metrô enfeitado e a surra de tiaras de unicórnios à venda em cada esquina. Não esperamos ansiosos pelos blocos de rua; no máximo, contamos os dias para ficarmos descansando no feriado. Mas também não ficamos bravos com quem espera. Para falar bem a verdade, a gente até gosta de bloco, não fosse o metrô lotado, o som alto, a multidão, o sol quente…

Aí ele chega, e nós, que não planejamos nada, decidimos que é hora de colocar aquelas séries em dia, a matéria em dia, faxinar aquele armário, enfim, a gente gosta de achar que feriado é feito para adiantar a vida, seja lá o que isso signifique. Mas é difícil focar na série, na matéria, na limpeza, ouvindo tanta música legal lá fora. Porque, quando e onde você menos espera, é lá que o bloquinho acontece.

De repente, você percebe que sabe todas as letras das músicas de Ivete Sangalo. E do Ara Ketu. E de Daniela Mercury. E de todo e qualquer funk com clipe produzido pelo Kondzilla. Quando se dá conta, foi rebolando da sala para o quarto, do quarto para a cozinha, da cozinha para o banheiro. Até abre a janela para ouvir melhor. Começa a bater um arrependimento.

Abre o Instagram, é só boia de flamingo de um lado, Ubatuba do outro, uma meia dúzia postando foto de viagem internacional. Ainda é o começo do feriado, então você abre a conta bancária e não tem dinheiro nem para comprar um par de boias de braço, modelo infantil. A gente se consola com o fato de que não vamos pegar aquele trânsito da volta, olha só que super vantagem! Abre o Facebook, dá risada do pessoal reclamando do carnaval (nem é tão ruim assim, vai…), dá risada dos memes dos desfiles das escolas de samba, fica triste de saber que o glitter é uma ameaça ao meio ambiente. Tão bonito o glitter, poxa. E a música lá, entrando pela janela. Resolve que não dá mais e chama namorado, prima, ressuscita aquele grupo do WhatsApp que andava meio parado. Oh, gente, mas tá tocando aquela música lá, do Gil. Aquela do filme da Sônia Braga. Que Deus deu ôôô, que Deus dá… Ah, como assim você não viu o filme?

Alguém finalmente se anima com a ideia de enfrentar metrô, som alto, multidão e sol ardido com você. Você vai na primeira e única loja que permanece aberta e compra uma incrível…

Tiara de unicórnio! Porque é só o que sobrou para nós, que não amamos e nem odiamos o carnaval. Quem ama carnaval, eu já falei: planejou 5 fantasias diferentes em janeiro, comprou fantasia temática e em grupo, tem até uma pochete de lantejoulas para não passar perrengue.

Mas tudo bem, a gente pensa em alguma coisa para ficar diferente. Aí volta para a casa e começa a se arrumar. Faz a maquiagem, escolhe a roupa mais fresquinha, erra completamente no sapato (rasteirinha no bloquinho? Você tem certeza? – diz o seu bom senso), bota 10 reais no bolso e vai.

Cinco horas depois a gente chega em casa. Os pés sem comentários, desde quando tem lama na Faria Lima? Tem glitter em todas as juntas do nosso corpo, na raiz do cabelo, na roupa, e a gente nem tinha comprado glitter. Aliás, falando em juntas, meu Deus, que dor em tudo, esse tal de Carnaval é um veneno para o joelho e para a lombar, né? Bate a mão no bolso e acha o celular, fica tão feliz que pensa em ir naquele retiro no ano que vem para agradecer. Tira a maquiagem, tira o glitter, toma banho, coloca um pijama, abre o catálogo da Netflix. Dá uma olhadinha nas fotos. Foto com a galera, foto sozinho, foto com gente desconhecida com fantasia criativa. Todo mundo feliz. Todo aquele brilho, aquele monte de unicórnios, todos lindos, lindos, mas aquele metrô lotado, o som alto, a multidão, o sol quente…

Se afunda no meio dos travesseiros e decide que vai precisar do resto do feriado para se recuperar. Aquele armário que espere. Assiste a séries até a quarta-feira de cinzas, enquanto tenta descobrir o que raios significa “escama só de peixe”. Adora o significado quando descobre.

A gente não ama e nem odeia o carnaval, mas tem um crush, uma paixonite que pega a gente uma vez por ano, joga no meio do bloquinho e quando vai embora deixa uma saudadezinha apertada. A gente até quer planejar uma viagem para o ano que vem, em algum lugar tranquilo no meio do nada. Mas sabota o plano rapidinho: se for assim, não tem o metrô lotado, o som alto, a multidão, o sol quente…

No fundo, bem lá no fundo, é isso que a gente ama.

Joyce Vieira

Joyce Vieira

22 anos, sorocabana de berço, paulistana de coração. Amante da medicina e apaixonada por gente.
Joyce Vieira

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