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A gente vai se acostumando a perder cada segundo da vida na tentativa de sobreviver – e não de viver. Vai perdendo cada detalhe que faria a diferença no dia se tivesse sido notado.

A gente vai se acostumando a tomar o café quente, de forma tão rápida, que mesmo quando queima tudo, a gente nem sente mais a dor.

Vai se acostumando a sorrir sem receber de volta, a doar sem retribuição, a amar sem ser notado.

Vai achando que tentar não demonstrar é a única maneira de não se machucar e, nessa tentativa errada, vai perdendo um pouco de si… De mim, de você, de nós.

A gente vai se acostumando a fazer tudo pelo outro e nada por si, porque assim evita chorar, ficar triste, com medo de não ter de volta a tão sonhada reciprocidade.

A gente, eu, talvez você, vai se acostumando com a ideia de que o príncipe encantado não existe. Que romantismo só existe nos relacionamentos alheios. Que só sobram migalhas para quem é tão inteiro.

A gente acha que Black Mirror não diz muito sobre nós porque já se acostumou a não notar o que de ruim faz cada um se afastar do outro. Não é a rede social, a tecnologia, a Internet. É você que esquece que do outro lado existe alguém que quer interação real, sem virtualidade de palavras lindas, que só são ditas através de uma tela.

Vai se acostumando a conquistar só quando não se tem, porque esquece de manter.

A gente se acostuma a perder a essência e quando percebe, já se perdeu por inteiro.

Andrea Cerqueira

Jornalista, meio Woody Allen, meio Bridget Jones, adora fotografia, e é viciada em música. Se apresentou com uma banda apenas três vezes na vida, mas ainda acha que pode ser a nova Rihanna/ Beyoncé. Pisciana nata.
Andrea Cerqueira

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