(H)á beleza por trás do caos • We Love

(H)á beleza por trás do caos

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No próximo dia 2, completam dois anos que perdi meu pai para um câncer. De lá pra cá, minha vida deu um nó. Um não, vários. Vi-me, então, obrigada a caminhar sobre essa corda enrugada, sem rede de proteção para casos de queda. Vida de malabarista não é fácil. Alguns dias dá vontade de descansar, mas aí vem essa tal vida e te chama ao pé do ouvido, por vezes com um grito de assustar criancinha. Nas mãos do caos há sempre duas opções: ser vítima ou atuante. Escolhi a segunda. Confesso que, por vezes, imagino como deve ser o outro lado, mas sempre me calça feito sapato um número menor. É insuportável.

No caos, os vazios são maiores, os tombos mais arriscados, o medo repousa um sono leve sobre seus ombros, mas acreditem: há beleza! Nos braços do caos, que em nada te amparam, você (re)aprende a caminhar feito criança insegura. Com pés desajeitados, mas presentes. O caos te mostra que você tem algo precioso para sua sobrevivência: coragem. Caso falte, você não sobrevive a ele e recorre aos lamentos dos que se vitimizam.

O caos quase nunca é seu amigo, mas é um professor e tanto. Mestre que te mostra que pedras podem, sim, vir a se tornar castelos, que beco sem saída só existe pra quem enxerga paredes ao invés de pontes, que nem toda dor tem remédio, mas que você pode sobreviver muito além dos limites que imaginou ter. Falando em limites, o caos testa TODOS.

O caos se encarrega de ser um sábio lavrador e, quando você se crê amparada, separa o joio do trigo. O caos te aponta quem, de fato, suporta te ver vencer. E os raros – raríssimos – que te projetam como escudos contra ele, o caos.

Pelos olhos do caos, acredite: é possível enxergar tudo mais belo. Um pôr do sol torna-se um presente, acordar é sempre uma vitória, respirar um privilégio, sorrir uma dádiva. O caos te tira o teto, mas te dá as estrelas. Te tira o chão, mas te dá asas. O caos não te desampara, só te mostra que você é capaz de se erguer sozinho.

Roberta Profice

Roberta Profice

Jornalista, carioca, mãe do Du, dona da Martha, cervejeira, que divide seu coração entre a Má, a praia, a escrita e a cozinha. Nada necessariamente nessa ordem. Escreve todas as sextas.
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