Imersão • We Love

Imersão

imersão

Há um mês, embarquei numa viagem rumo ao total desconhecido, entrei no avião e em 8 horas aterrizava no tão folclórico Acre.

Durante minha estadia em Rio Branco, pude ver tudo o que se espera de uma capital: parques, museus, biblioteca, mercado municipal e a maravilhosa diversidade na culinária local.

Para uma capital, posso dizer que as proporções eram menores (menos dos pratos), porém a cidade nada ficava a dever aos grandes centros. Havia engarrafamentos, pontos em que assaltos eram recorrentes e pelas ruas avistavam-se índios com cocares e pinturas típicas com a mesma frequência e naturalidade com que Caetano Veloso atravessa as ruas do Leblon. Bom, coisas do Acre.

Visita feita a capital, parti para o interior, mais precisamente para Xapuri.

Há algumas semanas, contei aqui um pouco da história do estado e essa cidade foi e continua sendo uma das mais importantes da região, tanto pela extração de látex (aquele papo dos seringais), quanto pela colheita de castanhas. Não podemos é claro esquecer dos conflitos vividos por Chico Mendes e seus companheiros de luta, que se deram exatamente ali.

Bom, voltando à estrada.

Em um táxi compartilhado (super comum para esse trajeto de 175 km), conheci um motorista sonolento, um passageiro enorme, que também foi dormindo no banco da frente, e um casal de jovens namorados que foram comigo atrás, rezando.

A menina era Carol, o rapazinho eu não me lembro, mas vamos chamá-lo de Beto (acho uma insensibilidade não dar nome as pessoas).

Eu passaria 2h30 ao lado deles e, apesar de estar super cansada, não me permiti ser a terceira pessoa do carro a dormir e fiquei de papo.

O Beto era falante, Jesus, como era! Logo nos primeiros quilômetros, me contou que morava com o pai, mas visitava a avó na fronteira da Bolívia. Largou o colégio, conheceu Carol, entrou para igreja, voltou pro colégio e nada de chegar Xapuri.

Eis que, pra quebrar o meu silêncio, caí na besteira (não adianta, eu não aprendo, sempre cometo esse mesmo erro) de perguntar quantos anos eles tinham.

Naquele momento, o tom mudou, os sons externos mudaram, acho que até o sol se pôs mais depressa e ela me respondeu: “Eu tenho 15 e ele tem 17, tia”.

Tento me conter, mas é automático. Quando alguém com mais de 10 anos me chama de tia, eu respondo na hora: tia é o cacete.

Eles riram, eu não, continuamos a prosa. Ela, agora detentora do assunto, contou que veio de Heliópolis, SP, depois de passar um tempo na Fundação Casa (antiga FEBEM), por uso de drogas e pequenos furtos.

– Motorista, ainda falta muito? – perguntei.

Ele deu um pulo e colocou o carro de volta à mão correta. Acho que ele era muito religioso e tinha o acompanhamento de uma força divina, porque essa é a única explicação para aquele veículo ter seguido em segurança.

E Carol continuou: “Quando eu tinha 10 anos, era da Igreja, mas comecei a andar com companhias erradas, meu namorado era traficante. Me mudei pra casa dele e, aos 12 anos (!), num baile, ele foi morto na minha frente. Deram um tiro na cabeça dele e eu comecei a gritar”.

Gente, nessa hora eu quis ir andando. Não fosse o breu da estrada, provavelmente, eu estaria caminhando por lá.

“Quando saí da Fundação vim morar em Cruzeiro do Sul (AC) com minha tia, daí casei novamente, mas não foi bom, ele me batia. Um dia ele me bateu tanto que fui parar no hospital, lá eu descobri que estava grávida, mas que tinha perdido o bebê. Fiz a curetagem, mas não pude voltar pra casa, estava com malária e fiquei internada 2 meses. Depois disso, fui morar com minha mãe em Rio Branco e conheci o Beto. Estamos juntos há 7 meses, voltamos pra igreja e pra escola”.

Juro que só consegui responder: “menina, agora vê se para de casar”.

Eu estava em choque, nunca tinha ouvido da boca de uma menina tão jovem a palavra curetagem nem tão pouco tinha visto um olhar tão triste de quem perdeu seu bebê.

O resto da viagem foi menos importante, menos estarrecedor.

Aquela menina me fez pensar num Brasil que está a uma coincidência de pegar o mesmo táxi de distância.

O carro parou, avistei um posto no meio do nada chamado entroncamento; nele, mototaxistas aguardavam passageiros. Tentei ligar para a pousada solicitando o transfer e adivinha? O celular não pegava. Montei na garupa e sumimos pelo ramal que leva até o Seringal Cachoeira.

Quase 30 minutos de terra batida e cascas de castanha para dar aderência aos veículos.

Seu Josué era ótimo de papo e, assim como eu, adora pescar. Me contou histórias sobre onças na estrada e eu contei a ele histórias de que, quando viajo sozinha na garupa de um desconhecido no meio da Floresta Amazônica, deixo todos os dados com minha mãe para que, caso aconteça algo ruim, ela saiba aonde me achar.

A verdade é que falei isso pra constar, porque medo que é bom eu não sinto. Acho que criei esse bloqueio quando visitei a Disney. Estava com um grupo de amigas adolescentes e eu não tinha o direito de recusar a ida a um brinquedo. Mesmo com medo, eu repetia mentalmente um mantra: “estou de férias, ninguém morre nas férias”. E lá ia eu, montanha-russa abaixo.

Chegando à pousada fui recebida pela administradora, a Dal, pessoa maravilhosa que proseou sobre histórias locais, me apresentou aos funcionários (até porque naquele dia não havia nenhum hóspede no local) e me deixou super à vontade.

Para quem acha que a estadia foi um perrengue, adianto que meu quarto tinha ar condicionado, frigobar e banho quente. Sim, estávamos no meio da floresta.

No dia seguinte, bem cedo, o tão esperado passeio na mata com o seu Tito Mendes. Caminhamos por quase quatro horas entre todo tipo de plantas que você possa imaginar.

Atenção! Esse tipo de passeio não é recomendado para pessoas ansiosas, cada metro pode demorar até 10 minutos para ser percorrido, dependendo da quantidade de espécies nativas interessantes que se possa encontrar.

Depois de 1 hora, você se sente numa farmácia (e não é exagero), há remédio para tudo. Ao longe, uma família de macacos-prego nos observava como se guardassem a floresta.

Chegamos então à plantação de abacaxis do seu Tito.

Acontece que um raio caiu na mata e destruiu algumas árvores; ele, para não desperdiçar terras, fez uma linda plantação e os abacaxis pareciam onças de tão grandes.

Ele virou-se pra mim e perguntou: “Quer levar um pra comer na pousada”?

Já pensando no peso e no perrengue de carregar a mega fruta, eu disse: “não precisa, tá tudo bem” (de onde eu tirei essa fala?).

Mas ele não se deu por satisfeito e com seu facão cortou a bicha e me deu a metade, já descascada. Acontece que, naquele momento, ele também me presenteou com uma doce memória olfativa.

Não importa aonde eu esteja, sempre que sentir o perfume dessa fruta, me transportarei pra floresta.

Delícias à parte, a mata é um ótimo lugar para os insetos habitarem e um péssimo lugar para se encontrar água corrente. Conclusão: estávamos em apuros. Mas, se você não acredita em milagres, pare de ler esse texto imediatamente.

Quando pensei que padeceria nas mãos de mosquitos e abelhas selvagens, uma tempestade se abateu sobre nós. Uma verdadeira ducha pra lavar o corpo, a alma e a plantação do seu Tito que, assim como eu, girava e dançava no meio da chuva e dos abacaxis.

Que momento mágico aquele, mas precisávamos seguir, a tempestade estava piorando e precisávamos continuar pela trilha.

O barulho da água era ensurdecedor, parecia que as árvores conversavam entre si. Já não era possível avistar nenhum animal. Naquela altura, todos estavam protegidos sob troncos caídos ou em suas tocas subterrâneas.

Eis que, em minha frente, seu Tito segue uma carreira e manda eu correr. Eu só conseguia andar velozmente com medo de torcer o tornozelo e encerrar ali minha viagem.

Então, em seu mais alto desespero, ele vira-se para mim e grita: “o ouriço, ta caindo”.

Ouriços são espécies de cocos cheios de castanhas, suas árvores possuem uns 20, 30 metros e definitivamente uma alvejada dela não é algo que se quer provar.

Tenho a sensação de que os habitantes possuem mais medo do ouriço do que de cobras e queixadas.

Corri como criança e me senti distante da adulta que deixei no aeroporto com celulares, computadores e um milhão de informações que não se encaixavam naquele lugar. Troquei meu HD mental e entendi porque muitos vão para nunca mais voltar. Você não entra na floresta, ela é que entra e vive em você, pra sempre.

Publicado originalmente em janeiro de 2016

Flavia Francis

Flavia Francis

Publicitária, taurina, pescadora com ascendente em escorpião. Quando some, tá na praia, com seus anzóis ao mar curtindo a brisa e a solidão. Tem uma queda por descobertas e um desabamento por rimas e emoção.
Flavia Francis

Últimos posts por Flavia Francis (exibir todos)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *