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Em tempos de glórias e feitos constantemente propalados em mídias sociais, faz-se necessária a seguinte confissão: meu cacto morreu. Ou melhor, na última semana, resolvi aceitar o meu perceptível fracasso, há dias tornado evidente, em cuidar de um ser vivo que não precisa de nada além de um pouco de água – e amor, dirão alguns.

A morte do cacto que trouxe de minha recente ida a Holambra serviu para um pequeno processo reflexivo a respeito da vida (mérito de toda morte), do cuidado e da aceitação. Em um ano que estabeleci como meta uma maior atenção e, sobretudo, conhecimento do universo das plantas, tornou-se ainda mais custoso aceitar a morte prematura – na minha visão, pautada apenas pela ignorância e pelo convívio – de meu filho cacto.

E, como trata-se de um texto de falecimento diagnóstico confessional, creio ser pertinente dividir algumas observações:

a) nós não vivemos das mesmas receitas e cuidados similares podem não nos satisfazer da mesma forma: o finado cacto foi comprado em parte pela empolgação com a minha primeira planta da família Cactaceae. Saudável, frondosa e crescida, a primogênita serviu não apenas de constantes comparações, mas como modelo de sucesso na proporção água/sol. Apesar de serem totalmente distintos, e isto ser um detalhe crucial, criei os dois da mesma forma – ignorando fortemente a minha meta inicial (e é para isso que servem as metas anuais, não?).

b) se algo não parece bem, pode ser que de fato não esteja: o cacto, como um bom vivente, deu sinais de que algo se passava com ele. Coloração amarelada, perda de folhinhas, envergamento. Diante dos claros sintomas, eu agi com verdadeira passionalidade: intensifiquei, desordenadamente, a água, os momentos de seca e os banhos de sol. Ou seja, apenas quando as minhas próprias tentativas se esgotaram, resolvi procurar o que de fato deveria ter sido feito.

c) nem tudo dura para sempre, o seu tempo não é o do outro, as condições são diversas: o descontentamento e certo sentimento de culpa só deram lugar à calmaria quando o cacto, óbvio, morreu um colega fez o seguinte comentário: ‘plantinhas assim não vivem por muito tempo’. Sim, sendo realista e honesta, sei a causa mortis – e vocês já devem imaginá-la. Contudo, a ponderação de meu colega me fez pensar que havia desconsiderado por completo o habitat da plantinha – e me refiro ao reduzido espaço de que ela dispunha para crescer e se formar, exatamente!, um vasinho de mesa de escritório.

As considerações acima, enfim, não alteram a diagnose: o cacto morreu de excesso de água.

De amor, poderão dizer outros.

Milena Buarque

Jornalista e pós-graduanda em Estudos Brasileiros, é pedestrianista e apaixonada por livros e América Latina. Gosta de viajar, de suco de limão e de vento. Não gosta de fazer perfil em terceira pessoa. Escreve sobre tudo e nada aqui e sobre cultura aqui.
Milena Buarque

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One Reply to “Isso é uma confissão: meu cacto morreu”

  1. O meu cacto também morreu. Semana passada. Também por excesso de água.
    A gente segue dando muito pra quem precisa de pouco e pouco pra quem precisa de muito.
    A vida e seus ciclos.

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