Ou Isto ou Aquilo • We Love

Ou Isto ou Aquilo

creative mess

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Esse poema da Cecília Meireles é uma das minhas primeiras lembranças de leitura. Não é meu favorito e não existe nenhuma carga de nostalgia ou romantismo nesse fato, eu apenas lembro de recitarem esse poema na escola ou de ter lido num livro infantil. E conforme o tempo passava, as pessoas insistiam em dizer “ou você faz isso, ou faz aquilo”, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Todos fomos educados para escolher entre uma coisa e outra. Num poema, é bonito. Na vida real, é um saco.

Pragmatismo em muitos momentos é a nossa melhor ferramenta para seguir com o “plano”, seja um plano concreto como carreira, casamento e filhos, seja o seu plano como indivíduo, dentro da sua estrutura moral, ética e funcional em sociedade. Às vezes é a nossa melhor defesa contra o novo, contra o que a gente não conhece. Às vezes, é preguiça de pensar em outra alternativa. O que eu percebo, ultimamente, é que as pessoas, em algum momento, decidiram que a vida deveria ser vivida em times opostos de opinião, em uma eterna negociação de argumentos, sejam em prol da defesa ou do ataque, dependendo do assunto.

Não tem problema ter opinião sobre tudo, porque isso significa acreditar em algo e fazer uma escolha. O problema é a gente escolher o pragmatismo antes da empatia. Ou, como acontece todos os dias nas redes, como reação a uma ação. Sem pensar no outro lado, sem exercer a empatia, sem vestir os sapatos do outro, porque honestamente… Todo mundo acha a grama do vizinho mais verde, mas ninguém abre mão de usar seus sapatinhos para pisar nela. E somos ensinados, todos os dias, a ter uma opinião a favor ou contra tudo. Isso é a Internet. Você precisa escolher um lado sobre a redução da maioridade penal, sobre a ciclofaixa da Avenida Paulista, sobre o casamento gay, sobre a novela, sobre o Masterchef, sobre o Cunha, sobre o panelaço, sobre a violência do Rio, sobre a lembrança dolorosa do 7×1, sobre a reforma do chafariz e, meu Deus do céu, sobre a cor de um vestido!

Sabe por que a Internet quebrou enquanto uns diziam que o vestido era azul e preto enquanto outros diziam que o vestido era dourado e branco? Não é porque cada um via de um jeito. Foi porque as pessoas viram as duas versões na mesma foto, em momentos diferentes do dia. Até a Wired tentou explicar, mas o que deu nó no cérebro foi perceber que a gente pode enxergar os opostos e suas nuances num mesmo objeto. E se a gente aprendeu isso na escola brincando com o prisma, por que será que a gente não consegue fazer o mesmo com todas as outras questões e aprender mais sobre a ótica do outro? Ou entender que, mudando de lugar, podemos ver diferente? Ou então, simplesmente apreciar as cores que um prisma pode formar?

Lu Minami

Lu Minami

Publicitária não-formada (porque pegou DP de educação física), uma generalista apaixonada por detalhes, exploradora de cidades e seus cantos secretos, leitora compulsiva e devoradora de séries. Ainda acredita no amor, mas diz que não.
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