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Janeiro: o mês em que decidi não precisar de ninguém

grito da independência | domínio público

Oi, meu nome é Igor e eu estou limpo há 18 dias.

Na virada constatei que ando carente. E, com todo o perdão da palavra, carência é uma bosta. Felizmente, não é ‘carência afetiva’. Talvez ‘carência’ nem seja a palavra certa. É só aquela coisa de não conseguir ficar mais de cinco dias sem trocar saliva com alguém sem surtar. É necessidade fisiológica – o que não diminui o peso da constatação inicial: continua sendo uma bosta.

Feito o diagnóstico, decidi contrariar o lado animal e afirmar a minha autossuficiência abdicando de qualquer contato íntimo (beijo, incluso), por um mês. Não, eu não escolhi esperar. Eu só escolhi dar um tempo, fazer um detox. E enquanto a couve bate no liquidificador, narro aqui a experiência.

Um de janeiro, ano novo: um pacote de viagem esgotado destruiu o plano de seis amigos e me fez passar o primeiro dia do ano em casa com familiares, facilitando o início da jornada. Longe das festas e de outros seres humanos que não tixs e primxs, curti meus bons drinks sem entrar em estado de abstinência.

Dois a cinco de janeiro, fim do recesso: de volta ao trabalho, com uma injeção de ânimo depois do período pós-recesso, o foco estava em produzir. Ao longo da semana, a lista de jobs aumentando gradativamente não reservou espaço pra pensar em boys – e, a bem da verdade, nem senti falta.

Seis de janeiro, primeiro rolê do ano: comecei soft porque tenho consciência das minhas limitações. Convidei uns alguns amigos de longa data pra colocar o papo em dia em barzinho no centro e mesmo estando alterado e sentindo aquela leve atração por alguém aqui e ali, curti e me senti suficientemente completo por estar ao lado de uma galerinha que considero pakas <3.

Sete de janeiro, dia inútil: filmes e séries ao longo do dia, por motivos de domingo. Início de carência constatado por motivos de filmes e séries sozinho ao longo de um domingo. Status: sobrevivendo.

Oito a onze de janeiro, dias úteis: trabalho, trabalho, trabalho, pausa pra ir em uma exibição de ‘Estômago’ na Vila Itororó (aliás, #ficaadica, todo mês um filme diferente e entrada 0800 com direito a pipoquinha) e mais trabalho.

Doze de janeiro, baladinha pós-expediente: só fui em consideração ao amigo que colocou meu nome na lista VIP. Perdemos o VIP porque chegamos atrasados. Sabe-se lá como, o dito cujo conseguiu colocar a gente pra dentro de outra casa sem precisar pagar. Curti o som e conheci Rainha Matos. Gritei loucamente quando a avistei. Ela, fofa, pegou na minha mão e disse ‘meu anjo, cê fez igualzinho a minha mãe quando a janta tá pronta’. Em algum momento alguém me perguntou se não rolava de trocar uns beijo. Bati um papo e acabei virando amigo da pessoa antes que um encontro de lábios acontecesse. Status: mais pura que a água mineral.

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Treze de janeiro, pré-carnaval: pesou. Pesou porque uma amiga e eu resolvemos brincar de ‘se cair, tem que lamber’, um dos jogos etílicos que já ganharam selo de copyright no nosso grupo. Caso o nome não tenha sido suficientemente autoexplicativo, a brincadeira consiste em abordar estranhos, perguntar se topam tomar um líquido cuja procedência é por eles desconhecida e, em caso afirmativo, virar a garrafa na boca do indivíduo. E propositalmente deixar cair. Porque aí outra pessoa desconhecida, previamente selecionada pelo grupo, tem que lamber.

Tudo correu normalmente nas primeiras rodadas, até que a amiga abordou um grupo de homens que fiquei EITA, ISSO AÍ É OBRA DE ARTE. Por fora mantive a polidez e o foco. Um deles topou. Pré-selecionei outro desconhecido pra lamber assim que o líquido escoasse. ‘Não, não, quem vai lamber é você’, ele disse. Veja bem, quase nunca isso acontece. Me tremi toda. Ele me puxou. Meu cérebro bugou por três segundos. O coro de amigos entoava ‘beija, beija’ enquanto a minha cabeça afirmava ‘AUTOSSUFICIÊNCIA, AUTOSSUFICIÊNCIA, mas ele é tão gato, CALABOCA, AUTOSSUFICIÊNCIA’. O coro mental ganhou. Corri do homem como corro sempre que alguém me convida pra ir a academia. Sobrevivi mais uma dia. Status: arrependida.

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Continuo batendo as couves. Dou esse testemunho a um passo no décimo nono dia de detox. Ainda não cedi, mas uma coisa garanto: é um processo. E nessa tentativa bizarra de me autoafirmar eu sigo. Talvez eu só devesse voltar com as sessões de terapia…

AGUARDEM CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS…

Igor Amâncio

Igor Amâncio

Produtor de conteúdo no We Love. Quase jornalista, amante da música, arranha um violão como ninguém. Um dia decidiu deixar de lado o video game e resolveu jogar com as palavras.
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